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Publicado em: 16/09/2011

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Vovó não está mais com a gente

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Vovó não está mais com a gente Vovó não está mais com a gente

Vovó não está mais com a gente

“De nada adiantariam as adversidades, os nossos infortúnios, se não nos tornássemos pessoas melhores, se não aprendêssemos como lições de vida.” Penso nessa frase, dita por minha tia, irmã de caridade, nos dias derradeiros de minha mãe.

Mamãe começou seus primeiros sinais de Alzheimer com a idade de 72 anos. Sou a última dos cinco filhos que ela teve. Somos três mulheres e dois homens. Ela me teve com 40 anos. No início, como na maioria dos casos, achávamos que eram somente lapsos de memória ou falta de atenção. Ou preocupação em excesso. Mamãe sempre fora uma pessoa muito preocupada com tudo. Com a chuva que poderia vir, com os netos que passeavam à noite, com minha família que viajava para praia, com o colégio das crianças, com o filho desempregado… Tudo era motivo de preocupação. Vivia sempre apreensiva, como se alguma coisa ruim viesse a acontecer. Quando, realmente, acontecia algo de ruim, sabíamos que encontraríamos uma mulher forte e amparadora, em vez de medo e apavoramento.

Vivenciamos todo o processo que a maioria das famílias brasileiras viveu ou vive, ao correr atrás do diagnóstico dos esquecimentos, cada vez mais frequentes. Toda a via-crúcis de consultórios, clínicas de exames, mostrar resultados de exames, testar medicamentos. Tudo muito angustiante e cansativo. Ficamos menos ansiosos, quando o geriatra que assumiu o caso de minha mãe nos disse: “Tudo sugere ser Alzheimer, porém somente o tempo e a evolução do quadro de sua mãe é que nos dará a certeza da confirmação deste diagnóstico. Leiam tudo sobre Alzheimer, aprendam como lidar com essa doença e como cuidar melhor de sua mãe. Esse será, com certeza, o melhor remédio que ela poderá receber.

Hoje, tenho um filho de 12 anos. Minha mãe me ajudou muito a criar o nosso Samuel. Eu trabalho como psicóloga num hospital de oncologia. Todos os dias, lido com pessoas em condições de terminalidade, com câncer avançado. Trabalho também com suas famílias. Algumas vezes, tenho que conversar muito com os pais de pequenos pacientes oncológicos. É um trabalho duro, difícil, mas estou preparada para isso e gosto do que faço. Como disse antes, minha mãe me ajudou a cuidar de Samuel. Não admitia nunca a hipótese de colocá-lo numa creche. Ela foi muito mais que uma avó, também foi mãe de meu filho.

Quando Samuel entrou para a escola maternal, quem levava e buscava era mamãe. Esta rotina continuou até o início do primário. E foi, justamente, num final de tarde, quando mamãe foi buscar meu filho, que percebi que algo não estava bem. Recebi um telefonema de uma padaria, no bairro onde fica o colégio de Samuel. A pessoa que me ligou queria saber se poderia buscar minha mãe, que parecia perdida e não sabia onde era o colégio do neto. Estava muito aflita e ansiosa. Pedi para a administradora do hospital para sair mais cedo do trabalho e corri para o colégio primeiro, pois há mais de 45 minutos que Samuel estava esperando sua avó. Depois, fomos a tal padaria, resgatar mamãe. Foi uma cena que me chocou muito. Encontrei-a chorando, de cabeça baixa sobre a mesa da padaria, com um olhar de pavor e de tristeza por ter-se perdido, por não saber mais onde era o colégio do neto. Foi difícil para ela aceitar, mas, a partir desse fato, meu marido se incumbiu de levar e pegar nosso filho no colégio.

Sua doença paulatinamente foi avançando. Os medicamentos para Alzheimer pouco ajudaram, no caso de minha mãe. Eu e meus irmãos procuramos aprender, de fato, tudo sobre o enfrentamento da doença. Participamos de reuniões da ABRAz de nossa cidade, ajudamos a divulgar essa doença no dia 21 de setembro, que é o dia mundial de Alzheimer, fizemos cursos para capacitação como cuidadores e como familiares e aprendemos, principalmente, a cuidar de nossa família. Quando o geriatra comentou que não era somente nossa mãe que estava doente, mas toda a nossa família, naquela hora não havia entendido o recado.

Num prazo de seis anos, mamãe já não conhecia mais seus filhos e seus netos. Não conhecia nem a mim. Não conhecia mais o Samuel. Achava-o uma gracinha de criança. Perguntava-me sempre como era o nome dele. Sua artrose de joelhos também atrapalhou muito. Já não conseguia mais andar sozinha. O andador era seu companheiro inseparável, seja no quarto, na sala ou no banheiro. Suas dores eram terríveis, vivia me pedindo mais e mais analgésicos. Tudo era paliativo, nada curava ou, pelo menos, aliviava por alguns dias as suas dores nas pernas. Mamãe estava perdendo a guerra, não saía mais da cama, como se a imobilidade fosse o melhor remédio para suas dores.

Numa consulta domiciliar, o geriatra, após inteirar-se da situação de mamãe, afirmou: “Não sei se você reparou, mas não é somente o Alzheimer que piorou o estado de sua mãe. Percebo que esta imobilidade, por ficar muito tempo na cama, é que está gerando uma série de complicações. O quadro reumatológico agravou-se e suas artroses agora também atrapalham as articulações dos ombros e dos cotovelos. Depois que sua mãe passou a usar fraldas (sei que foram necessárias), aumentou a recorrência de infecções urinárias. Até uma escara apareceu no glúteo. Ela está muito mais confusa e agressiva. Precisamos tirá-la da cama. Deixá-la mais sentada.”

O pior ainda não tinha acontecido. Mamãe morava sozinha e, nos últimos anos, mantínhamos uma cuidadora para ficar durante o dia e nós, filhas, revezávamos à noite. Todas trabalhavam durante o dia. Todas estavam muito cansadas. A situação estava começando a ficar insustentável. Mais uma sugestão do geriatra: “Já pensaram na possibilidade de levar sua mãe para uma casa de repouso? Em alguns casos, admito que possa ser a melhor solução. Pensem nisso!”

Depois de muito conversar com meus irmãos, optamos por levá-la para uma casa de repouso especializada em idosos de alta dependência. É difícil aceitar esta realidade. Parece fugir de nosso controle, não cuidamos mais dela, diretamente. Nossa tranquilidade é a sua cuidadora, que continua a trabalhar com ela durante o dia, na casa de repouso. Agora, o revezamento das filhas é no horário de visitas. No final de semana, a família toda se reúne em sua volta e, mesmo sem saber a razão de tanto alvoroço, ela adora os carinhos e a presença de todos. Ela está bem cuidada, faz fisioterapia três vezes por semana, sua escara cicatrizou e fica a maior parte do dia sentada em sua poltrona.

Samuel fica mais tristonho e calado, quando volta da casa de repouso. Num domingo, depois de mais um dia de visita, ele me perguntou: “Mamãe, por que vovó não me conhece mais?” Explico, mais uma vez, para Samuel que vovó está muito doente. Sua doença está principalmente na cabeça, na memória. Ela não reconhece mais ninguém da família. Ela se esqueceu de todos. Não porque quisesse, mas porque a doença atrapalhou sua memória. Com aqueles olhinhos de aflição que aprendi a conhecer, ele disse: “Mamãe, vovó está morrendo?” Pensando no meu trabalho e nas centenas de crianças que me fizeram uma pergunta muito parecida, não menti para ele. A vovó está muita cansada, sua doença está muito avançada, não sabemos quando, mas vovó brevemente não estará mais com a gente.

“Mamãe, quando vovó morrer, o que vai acontecer com ela?”

Antes de responder, pergunto para Samuel o que ele acha que pode acontecer. Sem pestanejar e com a convicção inocente das crianças, disse que vovó vai para o céu, pertinho de Jesus. Estava frequentando o catecismo para primeira comunhão. Dou um sorriso e concordo com ele. Faço uma pequena comparação: “Se você, Samuel, perdesse um brinquedo muito valioso, é claro que, para nós, ele estaria perdido, mas continuaria sendo um brinquedo muito valioso. Pode estar em outro lugar, com outra criança que o achou, mas continua sendo um brinquedo valioso. Assim será quando vovó morrer, ela não estará mais com a gente, mas continuará sendo a alma bondosa e amiga que sempre foi. Esteja onde estiver.”

Amanhecia. Era um domingo de sol de inverno, a temperatura estava baixa e havia poucas nuvens no céu. A enfermeira da casa de repouso me ligou, com a voz pausada e grave, avisando que minha mãe não acordara naquela manhã. Samuel me perguntou quem era ao telefone. Digo somente: “Vovó não está mais com a gente.”

Márcio Borges

Geriatra - marcioborges@cuidardeidosos.com.br

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1 comentários em “Vovó não está mais com a gente”

  1. Roselaine RRS do Carmo disse:

    É incrivel como as estorias são parecidas.a cerca de 8 dias meu irmão mais velho faleceu de um cancer avassalador,descoberto a 45 dias,minha mãe tinha uma ligação muito forte com ele,e eu me coloquei a pensar,que monstro é esse que varre tudo da memória apaga
    os sentimentos mais profundos de amor e de carinho,cuido dela que não sabe quem sou,mas como sempre digo;o que importa é que eu sei quem ela é.O Alzheimer,é silencioso mas devastador,cria em nós a impotencia e ficamos doentes tambem,aquele colo que era nosso não é
    mais,os papeis se invertem e a gente aprende a duras penas a valorizar ainda mais cada minuto dessa compania que embora fisicamente esteja lá,é só.

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