Publicado em: 31/10/2010

Violência contra idosos: relevância para um velho problema
Pode-se observar uma convergência entre ascausas externas específicas de mortalidadede idosos, entre os motivos de internação por maus-tratos e as expressões de violência, muito mais amplas, difusas, naturalizadas e reproduzidas na cotidianeidade das relações sociais no interior das famílias, nas instituições e em diferentes contextos sociais. Mortes no trânsito (primeira causa específica de morte) e quedas (primeira causa específica de internação) resultam, na maioria das vezes, de negligências, omissões e maus-tratos. É importante ressaltar, também, a universalidade do problema e sua dimensão histórica, presente nas sociedades complexas e contemporâneas e nas comunidades primitivas.
Em qualquer política de prevenção e atenção à violência contra os idosos, atualmente, precisa-se considerar as diferentes formas de configuração do problema. Devem ser objeto de atenção: políticas públicas que redefinam, de forma positiva, o lugar do idoso na sociedade e privilegiem o cuidado, a proteção e sua subjetividade, tanto em suas famílias como nas instituições, tanto nos espaços públicos como nos âmbitos privados. Por exemplo, a travessia mais segura das ruas, a conservação das vias, a reeducação de motoristas de coletivos para garantirem a segurança na subida e no interior dos veículos, maior tempo de sinalização para a travessia podem colaborar para a prevenção de acidentes nesta faixa etária.
Do mesmo modo, cuidados básicos de segurança, principalmente nas moradias, apoio nos banheiros, tapetes antiderrapantes e melhor iluminação,entre outros, poderiam evitar a ocorrência de quedas fatais. Embora as campanhas publicitárias tenham efeito duvidoso quando feitas isoladamente, é importante usar esse instrumento ou outras formas criativas de comunicação para sensibilizar a sociedade quanto ao envelhecimento da população e ao cuidadosque a maior idade demanda.
No caso dos serviços de saúde, é preciso que os profissionais, tanto os dedicados à atenção primária como os do setor de emergência se preparem cada vez melhor para a leitura daviolência nos sinais deixados pelas lesões e traumas que chegam aos serviços ou levam a óbitos. Em vários estudos, demonstra-se o pouco envolvimento das equipes para ir além dos problemas físicos, mesmo quando em seu diagnóstico fica evidente a existência de violências como causa básica das ocorrências. A lógica que define seu não-envolvimento costuma sera consideração do problema dos maus tratos, como sendo do âmbito privado, portanto, forada competência da medicina.
Um texto de Hirsch& Loewy (2001), escrito especialmente para médicos, alerta-os para a necessidade de melhorarem seu diagnóstico em casos de maus-tratos e ensinando-lhes a reconhecerem alguns sinais. Os autores afirmam que é preciso prestar atenção à aparência desse cliente; ao fato de que procure seguidamente seus cuidados para o mesmo diagnóstico; a suas repetidas ausências às consultas agendadas; aos sinais físicos suspeitos; e às explicações improváveis de familiares para determinadas lesões e traumas. E concluem instruindo os médicos para, no caso de observarem a ocorrência de abusos ou negligências, providenciarem um monitoramento mais cuidadoso que inclua visitas domiciliares periódicas, e se for o caso, que denunciem, às autoridades competentes, a existênciados maus-tratos, para que se tomem providências relativas a proteção dos idosos e à penalização dos abusadores.
Em todas as formas de aumentar o respeito à população mais velha, todas as políticas públicas voltadas para sua proteção, cuidado equalidade de vida precisa-se considerar a participação dos idosos, grupo social que desponta como ator fundamental na trama das organizações sociais do século XXI. Ricos ou pobres, ativos ou com algum tipo de dependência, muitos sustentam famílias, dirigem instituições e movimentam um grande mercado de serviços, que vão do turismo, lazer, estética, cosmética,produtos e assistência médica e social.
Autora: Maria Cecília de Souza Minayo
Conclusão de artigo publicado em:
Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(3):783-791, mai-jun, 2003
Extraído de: http://www.scielo.br/pdf/csp/v19n3/15881.pdf
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