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Cuidar de Idosos


Publicado em: 21/07/2009

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Vida: qual o prazo de validade?

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Se você ultrapassou o marco dos 60 km na estrada da vida, CUIDADO: você está começando a infringir os limites toleráveis pelo universo da medicina para tratar das doenças que atingirem o seu corpo! Se na sua teimosa insistência de continuar vivo, o ponteiro indicador de quilometragem rodada ultrapassar o marco dos 80 km, melhor seria se não precisasse ousar buscar recursos médicos para tentar continuar cometendo essa loucura de VIVER.

Entre os meses de maio e junho do ano de 2003, após algumas idas e vindas de internamentos no hospital com passagens pela UTI, meu pai – aos 96 anos de idade –, mais uma vez passou mal e, num estado de sofrimento com intenso desconforto respiratório, foi levado às pressas para a emergência hospitalar.

Após ser entubado, uma equipe de médicos e enfermeiros lutava para controlar suas funções orgânicas de olhos grudados nos visores numéricos das máquinas que pareciam enlouquecidas pela alternância descontrolada dos valores registrados. Eu já tinha obtido consentimento para estar junto dele e estava segurando-lhe a mão e acariciando-lhe a cabeça. Um dos médicos, já de meia idade, aproximou-se de mim e travou o seguinte diálogo comigo:

– A senhora é parente dele?

– Sim, sou filha – respondi. Ele então disse :

– Minha senhora, isto é um moribundo! A senhora vai querer UTI para ele?!

Sem acreditar no que ouvira, meio atordoada, peço a ele que saiamos do box para conversar longe do leito em que meu pai se encontrava. Fora do box, enquanto em silêncio atentamente eu o escutava, a conversa continuou:

– Parece que a senhora não está me entendendo…

– Estou entendendo perfeitamente, doutor! Pode continuar.

– Pois bem, veja só: isto é um moribundo! Muito mais humano seria levá-lo para casa para que ele possa morrer cercado pelos entes queridos. A senhora me entende? Nós o sedaríamos e a senhora o leva de volta para casa… É, parece que a senhora não está me entendendo…

– Absolutamente, doutor! Estou entendendo tudo o que o senhor falou e estou esperando que o senhor conclua o que está a me dizer.

– Pois bem, é isso. Nessa idade, não há chance. Para que UTI? A gente seda ele e pronto: ele vai pra casa e, sem sofrer, ele pode morrer cercado pelos familiares. O que a senhora me diz?

Respirei fundo e comecei a falar:

– Doutor, eu entendi tudo o que o senhor falou e acho até que o senhor tem toda razão. Concordo com cada palavra que o senhor disse, mas eu tenho dúvidas profundas a respeito desse raciocínio lógico que determina quem de nós é o verdadeiro moribundo.

Sabe, doutor, eu não tenho certeza se vou continuar viva até a conclusão dessa nossa conversa; não tenho certeza se, ao sair daqui, vou conseguir chegar viva em minha casa; não tenho certeza se vou viver até o próximo minuto ou até os cem anos. Na minha pobre e leiga opinião, todos nós que estamos vivendo este momento de agora somos nada mais que potenciais moribundos. O senhor me diz que a solução simples de sedá-lo, o livrará do sofrimento. Eis outra dúvida minha: para que ao menos fosse diminuída essa dúvida, seria preciso que, vestida na pele dele, eu passasse pelo mesmo estado de sofrimento físico, mental, espiritual e, sedada, pudesse constatar a libertação do medo, da dor, da angústia, enfim, do sofrimento psíquico. Isto posto, eis as minhas razões para, neste momento, lhe responder que seja dado a ele todo o tratamento de que a medicina dispõe visando proporcionar-lhe uma condição salutar de vida e o ajude nessa batalha de buscar recompor as funções de seu debilitado organismo.

Pedi licença e retornei para junto de meu pai. O médico, bem jovem, que continuou a luta para equilibrar as taxas enlouquecidas do organismo olhou-me com um doce sorriso e me disse: “não se preocupe, já conseguimos regularizar os batimentos cardíacos, a pressão e agora vou me empenhar para que seja disponibilizado um leito na UTI. Ele é forte e vai conseguir sair dessa!”.

Enfim, meu pai poucas horas depois subiu para a UTI, recuperou-se e nos meados de julho voltou para casa – com limitações, é lógico – mas só veio a falecer em 26 de dezembro de 2003. Apesar de acamado, ele ria, brincava, ouvia suas músicas prediletas, ouvia-me relendo livros para ele e interagia conosco, vivendo com dignidade e a relativa qualidade de vida que sua condição lhe permitia.

Ah! Doutores, deixem-me lhes dizer: só a força da vida pode nos dar as respostas que estamos buscando encontrar. Tenhamos a humildade de colocarmo-nos a serviço da força vital, ou seja, envidar esforços na utilização de todo o conhecimento e esgotar todos os recursos disponíveis para ajudar o paciente – não importa a idade que tenha. Se o doente vier a falecer, então mais uma vez tenhamos a humildade de nos prostrar com reverência às leis supremas da VIDA conscientes de que fizemos tudo que era possível fazer. A nossa inteligência deve curvar-se diante da INTELIGÊNCIA da vida!

“Quem sabe que a alma de tudo é indestrutível e eterna, sem nascimento nem morte, sabe que a essência não pode morrer, ainda que as formas pereçam”. ( Bhagavad Gita – A Sublime Canção)

Gracinha Medeiros

Gracinha Medeiros

- soriedem39@hotmail.com

3 comentários em “Vida: qual o prazo de validade?”

  1. Edna Pereira da Silva disse:

    Atraveis dos comentários adquido como cuidar idoso, vejos as dificuldades de nós cuidar cada vez+ das possoas idoso.quanto sofrimento,por par das familia.Minha é idosa.cuidamos dela muito bem.Por outro lado,ela muito teimmosa,com isso devemos de ter cuidado muito especial com ela.

  2. gracinha medeiros disse:

    Olá Elizabeth!

    Obrigada por sua visita ao site e por seu depoimento.
    Como estava com minha mãe de 95 anos hospitalizada, somente hoje é que estou podendo me sentar pra responder aos comentários recebidos. Que bom sentir o seu carinho e dedicação pelos idosos! Vá em frente e continue com o seu projeto de aprofundar seus conhecimentos para melhor cuidar dos portadores de Alzheimer e de Parkson. Como você diz: carinho, atenção e respeito é fundamental
    e nossos idosos precisam muito de profissionais com essa qualidade para cuidar bem deles.
    Um grande abraço

  3. elizabeth disse:

    passei por situação parecida,pois tambem sou cuidadora,mas o médico todo tempo foi excelente bem consciente da sua especialidade: Geriatra.Minha paciente foi embora devido a idade 100 anos sem nenhuma doença só idade.Moro em Salvador e hoje procuro outro ou outra para tomar conta porque amo esta profissão.Vou fazer curso para Alzeimer e Parkinson quero oferecer o melhor para o meu paciente sendo que o melhor continua sendo carinho e atenção e totalmente fundamental o respeito a qualquer idade mas no caso aqui a terceira e quarta idades.

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