Publicado em: 06/04/2009
O título pode ter ficado um pouco confuso, mas o objetivo deste artigo é mostrar as duas faces de uma mesma moeda – o trabalho voluntário realizado por pessoas em instituições, como as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) e aquele onde os idosos são voluntários, em diversos tipos de instituições.
Vale ressaltar que este tema surgiu de uma mesa redonda sobre O idoso institucionalizado realizada no dia 28 de março de 2009, na 2ª Jornada da Liga de Geriatria e Gerontologia, em Juiz de Fora MG, onde uma equipe multiprofissional discutiu questões referentes a esta problemática (não entendam este termo como algo apenas negativo), que permeia há tempos nossa sociedade. Ao final das explanações orais, o Dr. Marcio Borges propôs uma discussão sobre o que cada profissional pode fazer em benefício dos idosos institucionalizados e fez um apelo a favor do trabalho voluntário de acadêmicos e profissionais nas ILPI. Achei esta discussão muito relevante e julguei que mereceria ser tema de um de nossos artigos.
Segundo a psicanálise, o ser humano vive em um estado de desamparo, desde o seu nascimento até o momento de sua morte. Não irei falar sobre este tipo de desamparo estruturante, mas sobre um desamparo mais realista, um estado de carência afetiva e/ou material a qual nossa sociedade está exposta. Alguns segmentos de nossa sociedade vivem mais de perto esta escassez de recursos, existindo assim a crescente necessidade de doações (de recursos humanos e materiais), como uma forma de preencher o espaço vazio (daquele que necessita de cuidados e daquele que deseja se doar). Muitas crianças, idosos, adultos em situação de miséria, gestantes, portadores de necessidades especiais, doentes, animais (sim, animais!) encontram-se em situação de abandono e miséria e o trabalho voluntário pode ser uma alternativa bastante plausível para melhorar a qualidade de vida dos mesmos.
E quem pode ser o voluntário? Ao meu ver, o voluntário pode ser qualquer pessoa que tenha consciência destas situações, tão freqüentes em nosso meio; tenha vontade de melhorar o mundo, tenha disponibilidade para se doar e tenha condições para fazer alguma coisa em prol dos menos favorecidos. As exigências são poucas, não é? E a demanda e os resultados do trabalho voluntário são imensos.
É importante que a pessoa que deseja fazer trabalho voluntário escolha uma instituição para ajudar quem realmente necessite da presença destas pessoas e que aprove este tipo de trabalho, visto que uma instituição tem o total direito (visando à integridade de seus assistidos) de investigar quem é esta pessoa que deseja ser voluntário, quais suas motivações e qual sua possível contribuição. Antes de escolher a qual segmento populacional se doar, o candidato a voluntário precisa pensar bastante a respeito. Uma dica que pode ser bem legal é fazer o que se gosta e o que se sabe. Por exemplo, pessoas que se identificam mais com crianças devem procurar instituições que atendam crianças; pessoas que se identificam com idosos devem procurar instituições que atendam idosos, e por aí vai.
Uma vez decidido o local e com a anuência da instituição, o voluntário pode partir para a ação, dando atenção, carinho, trabalhando em prol dos assistidos e por que não ajudando na captação de recursos materiais para garantir desde as necessidades básicas até as necessidades de lazer e de ocupação do tempo dos assistidos.
Para ser voluntário não há distinção de sexo, raça e nem limite de idade. Todos podem contribuir. Há referências na literatura acadêmica que apontam as contribuições do trabalho voluntário não apenas para os assistidos nas instituições, como também para aqueles que se dispõem a ser voluntário. Isto inclui os idosos: o trabalho voluntário aumenta a sensação de auto-suficiência, de reciprocidade, de doação, diminui os sentimentos de tristeza, dá um novo sentido à vida, além de ser uma excelente forma de ocupação do tempo que surge após a aposentadoria. Os idosos podem sim se dedicar aos doentes, às crianças, aos animais e por que não aos outros idosos? Em alguns países isto já acontece, e por que não copiar as idéias boas para o Brasil?
Os idosos engajados em trabalho voluntário também podem se beneficiar com a ocorrência de relações sociais (intra ou intergeracionais), além do que outros estudos apontam ser a atividade um aliado para o envelhecimento saudável. O trabalho voluntário abre espaço para que profissionais aposentados possam doar sua experiência para aqueles que necessitam, além de ser uma oportunidade ímpar para voltarem a fazer o que gostam e sabem. Por exemplo, uma professora aposentada pode voltar a lecionar para crianças institucionalizadas e um pedreiro aposentado pode beneficiar idosos numa ILPI, com a realização de obras de adequação do espaço para idosos. Enfim, as possibilidades são inúmeras. Quem sai ganhando com isto? Fica claro que todos se beneficiam, não é mesmo?
Demanda sempre existe, cabe à sociedade se conscientizar, organizar-se e partir para ação, doando um pouco de seu tempo, de sua alegria, de sua disposição, de seu trabalho, de seu ombro amigo, enfim, doando um pouco de si para aqueles que necessitam.
Luciene C. Miranda
Leiam as palestras citadas acima, na 2ª Jornada de Geriatria e Gerontologia – LAGG – UFJF, em especial o Simpósio Satélite “CUIDAR DE IDOSOS EM INSTITUIÇÕES DE LONGA PERMANÊNCIA PARA IDOSOS”
ASPECTOS PSICOLÓGICOS ENTRE A FAMÍLIA E O IDOSO INSTITUCIONALIZADO
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Gracinha, mto interessante o seu exemplo.. de fato o trabalho voluntário, o preenchimento do tempo livre e a sensação de se doar um pouco em prol de quem precisa pode fazer mto bem para ambas as partes.
Sobre sua observação, isto aí é com o Dr Marcio, espero que ele já tneha visto isto. Eu consegui acessar aqui de casa, experimente ir pasando um slide por vez, aí pode ser no ritmo da sua própria leitura!
Bjo
Oi Luciene,
muito bom material! Conheço algumas idosas que se engajaram nesse trabalho de voluntariado, principalmente, aquelas que participam de comunidades paroquiais.
Há uma amiga que após cuidar anos a fio de marido e filho acometidos por patologias neurológicas e perder os dois num breve intervalo de menos de 12 meses entre um falecimento e outro, hoje dedica-se quase em tempo integral a trabalhos comunitários.
Ela me disse que a dor das perdas e o vazio que nela ficou, só puderam ser aliviados a partir do momento em que passou a cuidar de outras pessoas.
Lu, uma observação: os textos dos slides estão passando muito rápido, dificultando a leitura… Será que dá para torná-los mais lentos?
Beijos