Publicado em: 02/11/2008
Sobre nós mesmos. Mas parece que está longe de nós. Ou melhor: empurramos para o mais longe possível. A morte. Procurando sobre o que escrever nessa semana. Tive um arroubo interno; escrever sobre o dia de finados. Ainda mais que nesse ano caiu num domingo. Tem domingo que é a própria morte. Não dá vontade de fazer nada. Só morrer… morrer para os outros, para a família, para os filhos, para os projetos de vida. Enfim, viver morto num domingo qualquer. Essa sensação independe de idade. É a presença da depressão, que é a falta de vida.
Escrever é como viver. É difícil. Não é tarefa fácil, como possa parecer. São várias configurações presentes no ato da expressão da alma. Aqui estou com a morte pela frente. O que é pior: morrer ou envelhecer? Tem gente que prefere morrer. Eu não, prefiro envelhecer, morrendo aos poucos para as coisas que são de morte. Passageiras. Morre-se de várias formas. Querer tampar o sol com a peneira, é uma delas. Negar a morte. Depois de uma certa idade, 40, 50 anos, a gente começa a pensar no nosso fim. Eu penso nisso todo dia. A vida torna-se amiga da morte. Percebemos que não temos só a vida. Temos a morte também. São perdas e ganhos. Conquistas e frustrações.Não temos educação para envelhecer e muito menos para morrer. Precisamos aprender os dois. Equivocadamente associamos envelhecer a morrer. Como se a matéria-prima da velhice fosse o dia de finados. Nos cemitérios temos todas as idades enterradas.Na realidade atual, por exemplo, estamos perdendo a juventude precocemente para o trânsito, para a violência urbana, para as drogas e para a doença moderna da cidade: a onipotência: “eu posso tudo”.
Você acredita na vida após a morte, Pitico? Eu acredito na vida, mas é a morte que me faz viver. Várias mortes. Firmemente, prá mim o amor é maior, não morre. É um (pouco) como o tempo em Juiz de Fora, que apresenta: o outuno, verão, primavera e inverno, todas as estações num dia só. Viver é ter presente todas as estações. Por que na velhice são colocados o outono e o inverno? É possível sim, velhices de verão, velhices primaveris.
Aos finados, não desejo a vida eternamente, mortos. Os quero vivos, aquecidos no coração da memória movidos pelo amor. Esse sim, não morre nunca.
Pitico
NÃO VAMOS DEIXAR ESTE NATAL PASSAR EM BRANCO PARA OS NOSSOS IDOSOS DEPENDENTES!
VAMOS FAZER UMA GRANDE CORRENTE DE SOLIDARIEDADE E DE PARTICIPAÇÃO CIVIL, ELEGENDO O DIA 20 DE DEZEMBRO DE 2008, COMO O DIA DO ESFORÇO BRASILEIRO PARA APOIAR O MANIFESTO DA CARTA DE PERNAMBUCO. QUEREMOS QUE TODOS OS NOSSOS LEITORES E SUAS FAMÍLIAS CONSIGAM TODAS AS ASSINATURAS QUE PUDEREM, NESTE DIA 20 DE DEZEMBRO!
Algumas idéias que podem ser realizadas:
SOMENTE A PARTICIPAÇÃO E O APELO DE TODO UM GRANDE SEGMENTO DESTE NOSSO GRANDE PAÍS É QUE FARÁ NOSSOS GOVERNANTES ATENDEREM ESTA CARTA DE PERNAMBUCO, EM FAVOR DOS PORTADORES DE ALZHEIMER E DE SUAS FAMÍLIAS!
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MARAVILHOSO…parabéns, e obrigada , gente!! Assistentes sociais, assim como todas as gentes que estudam as gentes, sao imprescindíveis!! Amei o texto, J. Anísio, e também o seu, Regina…a quem eu aproveito para perguntar: Regina, nao será em boa parte por isso, a falta de tempo para o luto, a elaboracao das perdas, tao necessária ao ser humano, que dizem, é o único ser que tem consciência da finitude, enfim nao será por isso em boa parte que temos essa pandemia de diagnósticos ( nem sempre bem fundamentados…mea culpa né classe médica?!) de “depressao”?
Eu nao tenho sorriso no rosto em enterros. Mantenho meu constrangimento, tristeza ( nao costumo chorar em público, pura timidez, mas minha tristeza é – e tem que ser, eu acho… – aparente, nessas raras e íntimas ocasioes). Insisto nisso, que a Morte é um mistério para mim, e pretendo que se mantenha assim, até quem sabe nao é?! Nao insisto em idéias nem teorias do que há depois. Nao sei! acredito em Deus e em muito do que leio e ouco, e desconfio de outro tanto. o CARPE DIEM é fundamental para mim, e acredito que ele inclui, claro! , o sofrer, que nao precisa ser eterno ( mas até certo ponto é! , enfrentemo-lo!) , e principalmente, nao deve ser degradante, paralissante, mas o sofrer, é parte do que é Ser Humano…
mas disso você, Regina querida, e você, José Anísio, que tanto estudam Sociedades e Pessoas humanas… já sabem bem!!
Beijos
Dri
Caro amigo,
Há uns 40 anos e mais, o Dia de Finados, mesmo no domingo, era bem diferente. Desde a véspera, vendedores de velas, flores, algodão doce, caldo de cana e tudo mais já disputavam espaço ao longo da Espírito Santo e Osório de Almeida até o Cemitério Municipal para esperar centenas e centenas de pessoas que iam visitar seus mortos naquele dia especial. O burburinho de vozes começava bem cedinho, sem preguiça de feriado ou de domingo. Na cozinha da minha casa, a mesa de café da manhã ficava posta até o almoço e novamente era posta para o café da tarde para amigos e parentes que iam visitar seus mortos e aproveitam o dia para visitar seus vivos e lembrar, lembrar, abraçar, chorar e até rir. Era um dia muito especial na minha casa, um encontro entre a vida e a morte. As janelas do casarão eram disputadas palmo a palmo, com direito a almofadas no beiral, para o conforto dos que depositavam seus cotovelos por mais tempo naquele local. À tardinha, nuvens pesadas sempre ameaçavam os retardatários, e ao final da tarde, anoitecendo, os lumes anunciavam quantos passaram pelo local santo. E quando a chuva caía pesada, um cheiro quente de vela se apagando chegava às janelas, anunciando que a missão mais uma vez fora cumprida.Paz entre vivos e mortos esperando uma nova procissão no próximo Finados.
Nesse último Dia de Finados, alguns poucos floristas, desanimados, salpicavam alguns baldes de flores. Nem choro, nem risos, nem velas,”o tempo passou na janela”, como disse o Chico.
Tempo…”Tempo amigo, conto contigo, só me interrompe no final”.E quando é, afinal, o final?
Hoje, com a morte queremos menos importância, menos luto, porque o “tempo não pára”. Bem , ele nunca parou, mas se dava mais tempo à dor.Hoje é o tempo necessário, pois ninguém mais espera a sua dor passar. Vamos tocar o enterro e ir em frente com a dor entalada no peito, um sorriso no rosto…é brega sofrer, temos que ser fortes.Estamos nos tempos dos descartáveis.
E assim vamos, com nosso tempo passando na janela e, como Carolinas, não vendo passar…até sermos interrompidos no final.
Até breve, um grande abraço.