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Cuidar de Idosos

Publicado em: 21/01/2009

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Será que nossos mundos não são mais os mesmos?

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O tema de hoje será desenvolvido a partir do comentário do internauta Luiz Sérgio, o qual será transcrito na íntegra a seguir:

Luiz Sérgio diz: (30/12/08 às 9:12 )
“Parabéns, Dra Luciene, pelo blog. Cuido de meu pai de 89 anos e sou feliz por isto, entretanto as vezes não sei como agir diante das novas situações que vão surgindo, gostaria de entrar no mundo dele ou traze-lo para o meu, esta situação me deixa frustrado, pois parece-me que o estou perdendo.”

Primeiramente, aproveito o espaço para agradecer o comentário, que reforço que são muito importantes para escolhermos temas de real relevância para vocês, internautas. Obrigada também pelos parabéns.
Este comentário me chamou a atenção para alguns fatos, os quais irei abordar aqui. Merece destaque o fato de um homem ser cuidador de seu pai, um idoso de 89 anos, pois sabemos que na maioria das vezes uma mulher da família acaba sendo incumbida da tarefa. E melhor ainda: um homem que cuida de seu pai, demonstra interesse por se atualizar acerca do tema aqui no site, e relata ser feliz por isto. Fico muito satisfeita quando tomo conhecimento de algo assim: alguém está feliz por ser cuidador de um familiar idoso e não enxerga a tarefa de cuidar como algo demasiadamente dispendioso, como uma atividade ingrata ou mera obrigação.

O internauta não deixou maiores detalhes se mais alguém o auxilia a cuidar do seu pai, se o mesmo é portador e demência, dentre outros, porém relata ter dificuldades para agir diante de algumas situações que vão surgindo. Paremos para pensar: Quem aqui não tem um certo receio de lidar com algo novo? Por mais que as novidades, de uma maneira geral, nos trazem um novo fôlego por quebrar a rotina e introduzir mudanças às nossas vidas, em geral sentimos um certo frio na barriga, quando confrontados com alguma novidade. E não me refiro apenas a acontecimentos negativos, que ocasionam verdadeiras reviravoltas em nossas vidas como o surgimento de uma doença, a perda de um ente querido, a perda de um emprego, uma gravidez num momento inoportuno. Muitos acontecimentos positivos também podem causar este medo perante o desconhecido, como um novo emprego, um casamento, o nascimento de uma criança, a aposentadoria. Ficamos sem saber o que fazer diante de situações que modificam o estilo de vida, ao qual estávamos habituados a levar.

Por isto, no caso de alguém que cuida de um idoso não poderia ser diferente. Não sei se este idoso está morando na casa do filho, se isto mudou os hábitos de sua família. Algumas alterações decorrentes do processo de envelhecimento podem provocar esta reviravolta na vida do idoso e de sua família, principalmente daqueles que estão mais engajados com o cuidado do familiar. As rugas, os cabelos brancos, as mudanças no esquema corporal, uma diminuição no vigor físico podem causar espanto tanto no idoso, que muitas vezes tem dificuldade para reconhecer seu próprio corpo em processo de envelhecimento quanto para sua família, especialmente quando inseridos numa sociedade que ainda rejeita o processo normal de envelhecimento. Quando aparecem alguns sintomas característicos de demência como as perdas de memória (especialmente quando o idoso se esquece das pessoas mais próximas a ele), as alterações de humor, o aparecimento de outras doenças que podem tornar o idoso dependente, a incapacidade de cuidar de sua higiene pessoal e em lidar com o pudor, dentre outras situações novas, inesperadas e que ocasionam uma real mudança no estilo de vida do idoso e seu familiar, não há como não temer o novo e ficar sem saber como agir. Porém, o ser humano tem a capacidade de se adaptar às situações, sejam elas favoráveis ou não e num ritmo próprio de cada indivíduo esta adaptação vai acontecendo. O amor, a informação e a compreensão são sem dúvidas importantes aliados para se enfrentar estes períodos de transição.

E, finalmente, o leitor afirma que gostaria de entrar no mundo de seu pai, ou trazer o mesmo para o mundo dele, o “mundo real”, se bem interpretei. Todos nós temos um mundo da fantasia interior, onde podemos ser heróis, fazer o que nos der vontade sem nos preocupar com os medos, as conseqüências e em parecer ridículo. Na criança, este fantasiar predomina em sua vida e na medida em que a mesma vai crescendo o mundo real (com suas responsabilidades, frustrações e normas sociais) vai prevalecendo para assim consolidar um padrão de vida adulto. O senso comum costuma falar que o velho se torna criança, esta afirmação carrega consigo uma conotação bastante pejorativa e preconceituosa, porém é fato que o idoso demenciado passa a contar cada vez mais com este mundo da fantasia, sendo que este mundo pode, muitas vezes, ser constituído de situações e personagens que realmente existiram em algum lugar do passado. Nas famílias onde se preserva o hábito de contar a história de vida para os descendentes fica mais fácil para, futuramente, os filhos e demais cuidadores familiares conhecerem os enredos e se situarem melhor neste mundo tão particular do idoso. Esta não deixa de ser uma forma de se penetrar neste mundo tão particular, assumindo temporariamente o papel de determinados personagens e vivenciando situações encenadas pelo idoso naquele momento. Como já mencionei num outro artigo, a criatividade é fundamental para se sair bem diante do novo.

Boa sorte ao Luiz Sergio e aos demais cuidadores que estão em constante contato com o novo, o inesperado. Por favor, continuem enviando comentários e sugestões para que possamos fazer um site mais interativo e direcionado às necessidades dos internautas.

Luciene C. Miranda

Luciene C. Miranda

Psicóloga - lucienecm@yahoo.com.br

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9 comentários em “Será que nossos mundos não são mais os mesmos?”

  1. Luciene Miranda disse:

    Rose,
    Mesmo com atraso para te responder agradeço sua participação.
    A adaptação é realmente mto importante para lidarmos com situações novas, e, além disto, a informação contínua e atualizada tb é outro grande aliado para nós, profissionais da área e cuidadores familiares.
    Um abraço

  2. Luciene Miranda disse:

    Carmem Lucia, fico feliz por vc ter visto utilidade aqui no site! Espero que vc visite e participe mais vzs.
    Um abraço,

  3. Carmem Lúcia Dias disse:

    Adorei esta página, é a primeira vez que a visito. Eu cuido de minha mãe com 85 anos, demencida, pois deve 2 AVCs. porém não abro mão de cuidar dela, embora sabemos(cuidadores), que não é fácil. A troca de informação desse Site é fundamental para contuarmos nossa empreitada. Obrigada.

  4. Rose Aparecida Rodrigues dos Santos Lima disse:

    Parabéns ao cuidador é a primeira vez que eu tenho conhecimento de um homem cuidador, com certeza você é uma pessoa abençoada por Deus, já ouvi muito falar em mulher,mesmo sendo pai são muito bom os homens se interessar, pois a cada dia uma doença , e vocês devem ficar por dentro de tudo como nós , mesmo lendo temos medo das novas doenças a cada dia um novo desafio a cumprir com mudanças de hábitos , modificando o nosso ( família) e dos idosos o estilo de vida .tem idosos que não aceita seu envelhecimento e dificulta para nós cuidadores , com isso temos que ter muita paciência com os mesmos , sendo próximo ele pode também esquecer não sabendo quem somos .As ficamos sem saber agir , nossa sorte que temos capacidade de se adaptar ás situações ,não é atoa que o censo comum descobriu que o velho se torna criança.Obrigado pelo texto

  5. Luciene Miranda disse:

    Lucia, lidar com um paciente portador da Doença de Alzheimer é sempre um desafio, ainda mais para um casal que está começando uma vida a dois. Obrigada pela participação, espero que vc encontre no site informações que possam ser úteis para você e não deixe de comentar nos blogs qdo sentir vontade.

  6. Lucia Gallo disse:

    Casei em segundas nupcias com um homem 26 anos mai velho. Jah tinhamos um relacionamento antes do casamento e era perfeito. Apos o casamento ele comecou a apresentar sintomas de “alzheimer”: perda de memoria, dificuldade de reter informacoes, dificuldade em entender qualquer coisa, repeticoes, agressividade, mau humor, e, o pior: falta de higiene e sexualidade exacerbada e incoveniente.
    Apesar de nao morarmos na mesma casa, nos vemos com frequencia mas eh muito dificil. Alem de tudo isso, sinto que ele esta regredindo. Eh muito desesperador. Me sinto impotente e muito infeliz.

  7. Gracinha Medeiros disse:

    Claro, Luciene! Pode, deve e quanto mais você puder tocar no assunto melhor!
    É incrível como tenho observado ao longo dos anos o quanto os idosos se sentem constrangidos ante essa forma de ser tratado!
    E, pior, a maioria se cala, não contesta, porque tem medo de que as pessoas se afastem e os abandonem por reclamar de algo aparentemente “TÃO CARINHOSO”. E aí o que lhes resta é a apatia e a depressão.
    Uma das minhas observações: o vovô, a vovó, quando é visitado ou quando participa de algum evento (festas de aniversário, formatura, casamento, etc) ele é saudado na chegada e depois filhos, netos, genros, noras etc. formam as rodas de bate papo esquecendo-se de incluí-los na conversação.
    Geralmente, o vovô e a vovó, ficam sentados num canto da sala sem ter quem lhes dirija a palavra ou se interesse em puxar um assunto que os inclua. Quando o fazem, geralmente é pra fazer “bilu-bilu” como se fossem nenenzinhos.

    Um abraço

  8. Luciene Miranda disse:

    Gracinha, mto obrigada por sua assídua participação! Isto é muito estimulante na hora de escrever, acho que você já levantou uma temática bem legal para ser aqui abordada: a infantilização do idoso… Posso?
    um abraço

  9. Gracinha Medeiros disse:

    COMENTÁRIO

    Olá Luciene!

    Eis-me aqui novamente entusiasmada com seu texto.
    Realmente, apesar de todo o avanço do pensamento humano quanto à integração dos conceitos sobre o masculino e o feminino – prevalece ainda o ranço de que determinadas tarefas são de responsabilidade exclusiva da mulher.

    Por isso, é muito gratificante poder contar com o testemunho de um cuidador masculino e agradeço a ambos pela divulgação dessa experiência.

    Na verdade, assim como o Sr. Luiz Sérgio, há muitos homens exercendo o papel de cuidador mas são poucos os que se pronunciam. Outro dia mesmo, ao levar minha mãe – portadora de Alzheimer – para passear na praça, um senhor de 55 anos, encantado por vê-la aos 94 anos passeando comigo, muito emocionado contou-me que havia já três anos morando com a mãe bastante demenciada. Ele, apesar de não ser o único filho, de ter já passado por três casamentos, ter filhos já adultos, foi quem se dispôs a assumir os cuidados da mãe e – sozinho – com apenas uma empregada para cuidar da casa, era quem se encarregava de tudo: dar banho, trocar fraldas, levar a médicos e buscar incentivá-la a realizar as coisas que ainda fosse capaz de fazer por si só.

    Tomando por base a sua colocação “o leitor afirma que gostaria de entrar no mundo de seu pai, ou trazer o mesmo para o mundo dele, o “mundo real”, se bem interpretei”, ouso dizer que durante a nossa trajetória existencial vamos aprendendo a enxergar o mundo com as lentes de nossa percepção sensória cujo grau está diretamente relacionado com a carga da experiência individual de vida. Esta, por sua vez, é recheada pelas influências culturais e pelas intrincadas redes de relações sócio-econômicas em que somos envolvidos ao longo da jornada existencial.
    Assim, nessa multiplicidade complexa de “mundos” à nossa volta, é somente por meio do reconhecimento e expansão da nossa sensibilidade para acolher e compreender a “realidade” dos nossos próprios medos, dor ou prazer, que poderemos estabelecer um elo de profundo respeito e ligação com os ‘mundos’ das outras “realidades”. Em outras palavras, isso implica olhar para o outro vendo a nós mesmos como se fôssemos ele naquela condição e situação em que se encontra.

    Eis outro trecho de seu texto que exultei ao ler – “o senso comum costuma falar que o velho se torna criança, esta afirmação carrega consigo uma conotação bastante pejorativa e preconceituosa…”

    Sou uma combatente incansável dessa forma de ver o idoso como criança porque fatalmente se transforma na maneira de tratá-lo, o que – na minha opinião – irrita, deprime e o deixa, muitas vezes, apático. Tive a exata dimensão disto quando, anos atrás, ao acompanhar meu pai ao Banco – após uma cirurgia de catarata aos 78 anos de idade – pedi a ele que ficasse ‘sentadinho’ numa cadeira enquanto eu ia para a fila do caixa. Levei um carão daqueles, ouvindo-o me dizer: “o que sua fedelha? Nunca mais fale comigo assim! Eu sou um idoso e não uma criança ou um idiota! Exijo respeito pela experiência de vida acumulada durante todos os anos que já vivi e, por isso, não admito ser tratado com diminutivos!”

    Parabéns pelo excelente artigo e pela sábia argumentação do tema.

    Um abraço,

    Gracinha Medeiros

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