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Cuidar de Idosos

Publicado em: 29/09/2009

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Reciclando a vida

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E eis que chegou a Primavera! A flor que perfuma e alegra o jardim do meu coração, apesar de acamada, continua bela e o viço da ternura brilha forte em seu olhar. Nela, a delicada fragilidade do viver vai me ensinando a sugar o néctar da serenidade e da aceitação em meio às pétalas de dores e alegrias que, a cada momento, a vida faz desabrochar ao longo da nossa jornada.

Ao sol de cada manhã, a magia do despertar consiste em abrir os olhos como se fora a primeira vez para enxergar as luzes de um novo dia e com gotículas de orvalho regar as sementes que farão brotar a esperança ante a fluidez de novas experiências, novos aprendizados.

É assim que sinto a Primavera: uma intensa reciclagem da seiva da vida que segue fluindo dentro e fora de nós. E é assim que nos últimos seis meses, ante as novas condições de mamãe, sinto-me como uma jardineira a cuidar de uma flor delicada, mas cheia de seiva vital para prosseguir sua jornada.

O Alzheimer ganhou espaço para avançar mais rapidamente e contribuir para intensificar as limitações físicas e mentais de mamãe: devido à traqueostomia, sei que dificilmente voltaremos a ouvir o som da sua voz e a visível rigidez instalando-se nas articulações fazem-na depender de nós para qualquer movimento no leito.

Entretanto, apesar dessa completa dependência, seus olhos atentos continuam fazendo contato conosco e, junto com as expressões faciais, transmitem claramente suas reações emocionais. Fisioterapeutas, médicos, pessoal de enfermagem sempre comentam a força expressiva do seu olhar: zangada quando os exercícios a incomodam; risonha quando brincamos com ela; e é também fácil perceber quando está tristonha, ansiosa, assustada ou ainda quando – ao receber meus beijos e carinhos – toda dengosa, fecha os olhos dando longos suspiros de satisfação.

Os resultados de exames laboratoriais e a progressiva cicatrização da escara adquirida na UTI sinalizam a franca recuperação de seu organismo, enfim, como qualquer um de nós, entre dores e alegrias, mamãe está vivendo e lutando pela vida, ratificando minha convicção de que viver é essencialmente nutrir-se de amor, carinho, leveza, humildade e aceitação.

Penso no que meu pai me dizia: felicidade é simplesmente um estado de espírito, ou seja, é um sucessivo processo de aprendizagem em constante construção. Percebo então que para estar feliz é preciso entender que superação significa capacidade de adaptação a mudanças inesperadas em nossas vidas; que aceitação é render-se à transitoriedade das situações que, à nossa revelia, vão acontecendo ao longo da caminhada e que humildade é colocar-se a serviço dos propósitos da vida sem subjugações ou pretensões de vantagens pessoais.

Não resta dúvida de que tudo isso envolve sofrimentos: dor, medo, decepção, tristeza, raiva, mas é igualmente verdadeiro que em meio a tudo isso também há alegrias, vitórias e realização de alguns sonhos. Deduzo então que felicidade depende da grandeza de espírito que o indivíduo cultiva diante da vida.

Lembro das palavras do neuropsiquiatra, Wilhelm Reich, ao escrever no Verão de 1946 um documento, a título de desabafo, sem que tivesse a pretensão de publicar e que, posteriormente, foi publicado sob o título ‘Escuta Zé Ninguém’. Todo o livro é uma conversa com o ‘Zé Ninguém’, ou seja, o ser humano comum, cidadão do mundo que cada um de nós é, tecendo profundas reflexões sobre as formas como vivemos as nossas vidas cotidianas e os valores que cultivamos.

Vejamos alguns fragmentos retirados do livro traduzido por Maria de Fátima Bivar, Portugal – Abril de 1982:

“És GRANDE, Zé Ninguém, quando não és medíocre e mesquinho. A tua grandeza é a única esperança que nos resta a todos… És grande quando desempenhas com gosto a tua tarefa,… És grande na tua velhice, com o teu neto no colo, dizendo-lhe de como foi outrora, respondendo à sua curiosidade confiante. És grande quando és mãe, embalando o teu filho nos braços, o coração cheio de esperança de que para ele venham melhores dias, a felicidade que, hora a hora, lhe vais construindo.”

“E és grande quando afirmas ao teu amigo: Ainda bem que o destino me concedeu até hoje uma vida limpa e sem ambições…; ainda bem que não deixei passar a Primavera sem a sentir, que pude gozar o vento ameno e o rumorejar dos regatos e o canto das aves; ainda bem que, mesmo em tempo de perturbação, não perdi o norte nem o sentido da vida. Pois que me foi possível escutar a voz que murmurava no meu íntimo – Existe apenas uma única coisa que vale a pena: viver bem e alegremente a própria vida. Escuta a voz do teu coração, ainda que tenhas de afastar-te do caminho trilhado pelos timoratos. E não consintas que o sofrimento te torne duro e amargo.”

E vou ficando então por aqui, ouvindo o eco da voz que murmura no meu íntimo dizendo-me que sempre é possível “viver bem e alegremente” em qualquer situação ou circunstância.

Uma boa semana para todos.

Gracinha Medeiros

Gracinha Medeiros

- soriedem39@hotmail.com

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