Publicado em: 12/08/2011

Quero ir para a minha casa!
Sexta-feira, 08 de outubro de 2004
Primeiramente, vou contar por que iniciei este diário. Sou professor de literatura espanhola, na universidade de minha cidade. É verdade que tenho tempo de trabalho para aposentar-me. Em língua espanhola, chamam de jubilação (jubilación). Gosto do que faço e a idade de sessenta e oito anos em nada me atrapalha. Na última semana, li um conto do grande escritor argentino, Jorge Luis Borges, cujo título é “Funes, O Memorioso”. A história é muito interessante, de um homem que nunca esquecia, lembrava-se de tudo que se passou, dos mínimos detalhes, de todos os dias, de todos os sonhos, de todos os cheiros e cores. Tudo. Como Funes mesmo sentenciava, no conto: “… mais lembranças tenho eu, do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo.” E isto para ele era intolerável: “ Minha memória, senhor, é como um depósito de lixo!”
Tenho ficado muito preocupado com meus esquecimentos. E depois de ler este conto de Borges, fiquei obcecado com as minhas falhas de memória e os meus lapsos. Sou famoso por decorar textos longos e declamálos em público e uma grande facilidade para aprender novas línguas. Além do espanhol, sei falar e escrever em inglês, francês e italiano. Mas, estou esquecendo algumas palavras. Não só palavras, também a explicação de algumas regras gramaticais e de nomes de autores famosos da língua espanhola. Outro dia, para se referir ao autor de Don Quixote de La Mancha, não conseguia lembrar o primeiro nome de Cervantes. Era Miguel. Procurei um médico. E a suspeita de Alzheimer foi levantada. Assim, escrevo este diário. Minha mãe teve Alzheimer. Não quero esquecer meu passado, minha história. Minha memória.
Quarta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Não é que tenha esquecido a intenção de escrever neste diário, devo dizer mensário? A partir do momento que ocorre a suspeita de Alzheimer numa pessoa, parece que tudo muda. Ficamos mais temerosos, mais preocupados e inseguros, tanto com os resultados de exames, quanto com a sua própria memória. A família também muda muito, fica muito presente, não te larga, fica insegura.
Meu médico ficou até surpreso pela minha iniciativa de procurá-lo. Conversamos muito, foram feitas várias perguntas e fizemos até um teste de memória. Respondi quase tudo, só não conseguia me lembrar de duas palavras que ele repetiu várias vezes e pediu que guardasse. De uma, eu não me esqueci: era carro. Agora, tijolo e dinheiro, não me lembrei mesmo. Pediu, então, uma bateria de exames, uma ressonância magnética da cabeça e uma avaliação de memória com a psicóloga que trabalha com ele. Os exames vieram com resultados normais. Já os testes mais detalhados da psicóloga mostraram que eu estava, realmente, com dificuldades para lembrar coisas corriqueiras e fatos mais recentes. É verdade: queria descrever com mais detalhes como foi a consulta e os exames, mas não me lembrava dos pormenores. Recorro à minha esposa e, por seu relato e sua memória, é que escrevo os detalhes da consulta e do exame.
Meu médico falou num tal de declínio cognitivo leve, onde somente a memória de curto prazo (é assim que eles chamam, quando você esquece coisas recentes) está afetada. A pessoa continua independente e consegue viver uma vida praticamente normal. Entretanto, como tenho uma herança familiar forte para Alzheimer, minha finada mãezinha, deveria fazer reavaliações periódicas e me estimulou a continuar escrevendo o diário.
Segunda –feira, 15 de agosto de 2005
Tive que abandonar a faculdade de letras. Nem com minhas fichas de anotações curriculares, conseguia dar uma aula. Terminei pela metade várias aulas, alegando dor de cabeça. Minha esposa aconselhou-me a aposentadoria. Conversei com o conselho de educação de minha universidade, expliquei minhas razões e me aposentei.
Estou mais acanhado e triste. Não vou mais ao clube, não participo mais das atividades com a turma do baralho. Medo de dizer que não me lembro do que falaram há poucos minutos. É terrível.
Todas as responsabilidades da casa e todos os compromissos bancários, deixei com a minha esposa. Como sempre fui o responsável pelos serviços de banco, acho isso uma grande derrota. Mas ela sempre me faz um carinho, diz para não se preocupar e logo esqueço este tipo de preocupação. Hoje percebo que minha memória está funcionando melhor. Queria escrever algo neste diário e não conseguia. Hoje sim!
Quarta-feira, 12 de janeiro de 2006
Minha esposa pediu que escrevesse algumas palavras neste diário. Ela o chama de diário da lembrança. Li-o algumas vezes, mas, juro, não me recordo de ter escrito nada do que li. Às vezes, olho para este diário e acho que o que leio é invenção dela.
Deus me perdoe, às vezes, quando acordo, olho para o lado e vejo uma mulher estranha dormindo comigo. Quando meus filhos vêm nos vi-sitar, pergunto sempre pelos nomes dos netos. Desses nunca lembro os nomes. E eles gritam pelo nome do avô!
Minha esposa disse que fomos ao médico ontem. Deu muitas voltas e respondeu, a muito custo, uma pergunta minha. O que é que estava acontecendo com a minha memória? Só depois que minha esposa me tranquilizou, pôde responder, com a voz embargada: “É a mesma doença de sua mãe. É Alzheimer.” Eu já sentia, eu já sabia. Naquela hora, a emoção da certeza foi tão forte, que eu parecia não estar doente. Disso, eu me lembrei perfeitamente.
Terça-feira, 30 de maio de 2006
Insistência da minha mulher. Não queria mais escrever. Escrever o quê? Ela fala que é o meu diário que me ajudaria a lembrar melhor. Leio cada frase e acho que é invenção dela o que ela afirma que escrevi. Tenho certeza, não escrevi nada daquilo!
Não posso mais sair sozinho. Não me deixam mais pegar no meu dinheiro. Acho até que minha família esteja roubando o meu dinheiro. Tudo que faço, tem alguém perto de mim. Falam que minha memória não está boa. Balela! Lembro de tudo. Minha memória está ótima!
Todos os dias, acordo e me apronto para ir para a faculdade. Fico procurando a chave do carro e não encontro. Minha esposa, toda amável, diz que o carro está com defeito e que está aguardando o mecânico levá-lo para consertar. Lembra-se? Não, disso eu não me lembro.
Sábado, 16 de dezembro de 2006
Meu marido não pode mais escrever este diário. É extremamente doloroso para mim, que convivo com este homem maravilhoso há 40 anos, ver seu declínio. Fui sua aluna quando iniciou na universidade. Amor à primeira leitura, ao primeiro contato. Também sou professora de línguas, só que minha especialidade é a língua inglesa. Pedi, ontem, só mais uma vez (pedi várias vezes, por vários dias) que ele fizesse mais uma nota em seu diário. Ele olhou para o caderno, parecia ler algumas frases e, num olhar de desprezo, devolveu-me, sem dizer nada.
Pouco fala, irrita-se com frequência. Minha primeira impressão sempre é achar que, para ele, sou uma estranha. Meu Deus, lidar com a doença do meu marido é extremamente difícil! Dorme tarde, acorda muito cedo, sempre querendo ir para a faculdade. Pede a chave do carro. Todos os dias, tenho de recordar-lhe do mecânico. Todos os dias.
Digo para nossos filhos que este diário será nosso legado e nossa fortaleza, na luta contra a doença de Alzheimer. Tenho a expectativa realista de que meu marido não ficará curado. Essa doença será sua sina, será seu fim. Um homem tão bom, tão amoroso! Até o fim, escreverei sua aventura final.
Segunda-feira, 23 de julho de 2007
Sete meses se passaram e eu nada escrevi neste diário. Faltou-me tempo e forças para escrever nossas desventuras. Meu marido rapidamente passou para a fase intermediária da doença de Alzheimer. Não conhece mais nossos filhos e netos, não me chama mais pelo nome e muitas vezes meu nome é psiu. Psiu, vamos lá. Psiu, quero ir embora…
Foi difícil para aceitar, mas tive de colocar um cuidador para ajudarme nos cuidados. O rapaz fica durante o período diurno, levando-o para passear (ele adora sair de casa), ajuda em seu banho e na alimentação. Além dos remédios normais para pressão alta e para Alzheimer, o médico teve que receitar um medicamento para mantê-lo mais calmo e dormir melhor. Quando vai anoitecendo, nosso calvário diário recomeça. Fica mais agita-do, andando pela casa, abrindo e fechando portas. Sempre diz, em altos brados: “Quero ir para minha casa!” Nessa hora, sempre que posso, levo-o pro carro, damos umas voltas e voltamos para casa, já com a noite definida. Falo, com ar de surpresa e alegria: “Que bom, chegamos em casa.” Às vezes, dá certo, às vezes não.
Quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
No final do ano passado, não tivemos natal e reveillon. Meu marido, com a piora da agitação, chegava a querer agredir todos que estavam perto. Inclusive eu. Não podia ser contrariado. Trocamos os remédios para acalmá-lo, no entanto, ele ficou mais sedado e com o equilíbrio ruim, vivia caindo dentro de casa. Uma noite, ele levantou-se sozinho e parecia querer ir ao banheiro. Não acordei justamente nessa noite, estava muito cansada. O barulho da queda na porta do banheiro acordou todo o prédio. Depois veio um grito infernal: “Tá doendo, tá doendo, doendo…”
Ele fraturou o fêmur direito. A ambulância pareceu demorar uma eternidade. No hospital, após o diagnóstico da fratura, o ortopedista mencionou a necessidade de cirurgia. Falaram-me que a cirurgia correu muito bem, colocaram uma haste de metal e a fratura foi consertada. O pior veio depois. Acordou da anestesia muito agitado, arrancando sonda urinária, soro e querendo levantar da cama. Foi um custo ficar contido e sereno. Quando veio o jantar, parecia que estava mais calmo e até aceitou a sopa. Só que vomitou logo depois e, a partir disto, começou a respirar mal. Roncava muito, tossia muito. Solicitei o médico de plantão e após examiná-lo, juntamente com a radiografia do tórax, chamou-me fora do quarto e disse ser pneumonia aspirativa nos dois pulmões. Teria que levá-lo para UTI, onde seria entubado e colocado no respirador.
Prefiro não relatar o resto da história. Meu marido não saiu mais da UTI. No atestado de óbito estava escrito insuficiência respiratória aguda.
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São relatos que muito nos emociona. Minha mãe tem 79 anos e está com esta terrível doença e nesta fase, todos os dias ela diz que quer ir para casa, ela apagou da memoria que mora nesta casa e colocou na cabeça que mora em uma cidade Chamada Domingos Martins-uma cidade do interior de Vitória-ES…ela já morou lá, mais isso faz mais de 40 anos…e assim tem sido todos os dias o sofá está cheio de sacolas com roupas e repetindo que irá embora e nunca mais voltará aqui…não adianta dizer que aqui é a casa dela, pois me chama de louca me agride, estou com arranhões nos braços mordida no ombro, porque tive que colocar outro cadeado no portão se não ela sai. Teve um dia que não coloquei o cadeado e eu acabei dormindo pois estava passando mal, ela saiu e por pouco não foi atropelada, meus vizinhos trouxeram ela de volta, ficava pensando quando chegar as fases futuras, quando ela ficar mais acamada as coisas ficariam mais calma, mais pelos relatos, vejo que será mais sofrido, não sei mais o que pensar, só sei que estou sofrendo muito e não tenho pelo menos um irmão para dividir a mesma dor, sou filha única. Que Deus nos proteja e nos dê muita força e paciência para conviver com está triste doença.
desde,ja agradeço a todos
sou alessandra moradora de campo grande, zona oeste do rj tenho 27 anos, deus me deu uma dadiva da vida. de trabalhar durante um ano e meio com um casal. de idosos maravilhosos ela dona enoi com 84anos e com mal de alzheimer o seu esposo antonio com 89 anos lucido, mas como trabalhava uma semana no serviço e folgava 3 eu tive que sair devido a falta de compatibilidades no serviço,com os meus dias de cursos que são as terças e quintas de 17;00 as 21;00 da noite poriso queria muito um serviço sexta sabados, e domingos´é feriados como folguista sou responsavél,educada carinhosa,dedicada, paciente é acima de tudo amo muito o que eu faço, tenho carta de referençia por favor se alguem quiser e so mandar um email alesinharenzo@hotmail.com ou pelo cel 71367643 ou 76908362
linda essa historia fiquei emocionada,
Linda história. Minha mãe já está na fase de querer ir pra casa todos os dias. Fico pensando quando chegar a fase terminal se poderei cuidar dela como ela merece. As vezes não me acho preparada para essa situação.
FIQUEI PROFUNDAMENTE EMOCIONADA COM O TEXTO ACIMA, AMANHA LEVAREI MINHA MAEZINHA AO MEDICO PARA DAR UM DIAGNOSTICO MAIS CLARO SOBRE SEU COMPORTAMENTO. ELA ESTA TENDO UMA MUDANÇA RADICAL QUE MUITO PREOCUPA, SEMPRE GOSTOU DE PASSEAR, IR NA MISSA, PAETICIPAR, E DEREPENTE A CAMA PARECE SER O SEU LUGAR PREDILETO… MUITO COMPLICADO
Pois é, li o texto…muito triste mas muito real…minha mãe tb esta com esse mal…e a evolução está muito rapida…teve uma piora em 1 ano e meio, que até então até dirigia…
Estamos perdidos..pois com essa evolução não conseguimos aprender como tratar ja esta em outra fase no dia seguinte…
Não sabemos o que fazer…estamos perdidas…se alguem puder nos ajudar com suas experiencias…
agradeço,,
Fico emocionada. Algo me impele a ler, e a recusar ler,porque dói demais.
Minha mãe, está com esta doença terrível, há sete anos. Mas eu preferia quando ela agitando dentro de casa do que vê-la como um bebezinho silencioso. Algumas vezes interage conosco e noutras,temos que adivinhar ,seu desconforto, alguma dorzinha que possa estar sentindo. Só Deus para me dar forças e coragem.Não fossem os cuidados do Senhor… Vivo cada dia como se fosse o último, para ter certeza de que fiz o melhor. Oro a Deus pra iluminar os cientistas na descoberta da cura de uma enfermidade tão devastadora.
Eu me emociono cada vez que leio uma história completa de um paciente de Alzheimer. Isto porque a minha mãe está há 13 anos em tratamento, hoje ela tem 81 anos, fica um pouco sentada, anda pouco, dentro de casa, mas parece que sempre está feliz. Mas eu fico me lembrando: que saudade quando ela fazia aquelas perguntas intermináveis, quando ela dizia que queria ir para casa. Entende? Nesse ponto ela ainda se comunicava quase que plenamente com a família. Hoje não. Ela fala coisas que às vezes entendemos outras não.
O artigo nos ajuda a revisar nossas condutas, e a preparar-nos para a fase final.
Fiquei emocionada com o texto. Parabéns!!!!
Nossa que texto lindo e triste…Infelismente e assim,fico muito triste quando a minha mae chegar nesse estado de nao me conhecer mas …