Publicado em: 04/06/2011

Quem agride é a doença!
A festa de 60 anos de casados de Rubinato e Rosária foi o acontecimento do ano, na vila onde moram. A rua ficou enfeitada de desenhos de diamantes, na alusão às bodas de diamante. A missa foi campal, já que na igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não caberia toda aquela gente. A alegria da comemoração era tão contagiante, que até tapete de serragem colorida foi feita pelos moradores da rua, para o padre, o casal e sua família passarem rumo ao altar, montado para a ocasião. Rubinato e Rosária foram os primeiros moradores da vila, há exatos 60 anos. Compraram um terreno da empresa de loteamento, em suaves prestações e foram levantando sua casinha. A casa aumentava mais um cômodo, de acordo com a chegada de mais um filho. Hoje, na festa das bodas, todos os oito filhos, vinte e cinco netos e mais seis bisnetos estavam radiantes, demonstrando para todos que o maior tesouro da vida de um casal é a sua família. E foi esse o tema central da homilia do padre Afonso: o amor do casal e seus votos do matrimônio, resultando numa vida de muitas lutas, mas com a coroação de uma união estável, de uma família bem construída.
Porém, um fato deixou Rosária pensativa durante todo o dia. Ao acordar, percebeu que a rua já estava movimentada com seus vizinhos iniciando os preparativos. Rubinato, que era um dos mais animados pela comemoração das bodas, também acabara de acordar e vendo toda aquela agitação lá fora, perguntou para Rosária:
- Minha velha, vai ter alguma festa hoje? É feriado de Corpus Christi?
- Rubinato, deixa de ser besta, homem! Até parece que não sabe que dia é hoje?
- Mas, hoje não é sábado? Corpus Cristi não é na quinta-feira?
- Esqueceu das nossas bodas de sessenta anos, meu velho? Tá querendo me enganar ou tá começando a ficar caduco, seu Rubinato?
A festa não poderia ter ficado mais bonita. Houve um grande baile, no final, e todos dançaram até de madrugada. Seu Rubinato nem parecia ter 84 anos, era um verdadeiro pé-de-valsa. Não teve uma moça bonita que não dançara com ele. Vendo o esposo todo feliz, Rosária acabou por não dar mais atenção para o esquecimento do marido, naquela manhã.
Seis meses passam rápido demais. Até parece que a festa foi ontem! No entanto, o que no começo foi só uma intuição de que algo na memória de Rubinato não ia bem, transformou-se em um motivo de muita apreensão. Por várias vezes, ele não conseguia lembrar-se das fotos e das pessoas que participaram da festa. Até mesmo sobre a festa, Rosária percebia que ele parecia não se lembrar. Falou sobre isto com Maria do Céu, a filha mais velha, muito chegada aos pais, já que também ajudou a cuidar dos irmãos menores e foi uma das últimas a casar.
-Também venho observando papai já algum tempo. Vou marcar uma consulta com Dr. Geraldo e nós vamos sozinhas conversar com ele. Estes esquecimentos não são normais!
E foi o que aconteceu. Dr. Geraldo, velho conhecido e médico da família, também havia percebido mudanças no comportamento de Rubinato, em sua última consulta de controle. Estava mais impaciente na sala de espera do consultório, coisa que nunca fizera antes. Ao contrário, gostava de esperar e bater papo com outros clientes e com a secretária. Assim, pediu exames de sangue e uma ressonância magnética do crânio. Os resultados foram normais para a sua idade. Finalmente, foi solicitada uma avaliação neuropsicológica com a psicóloga que trabalha com o médico.
- Sr. Rubinato, eu vou lhe falar três palavras e quero que o senhor repita: carro, tijolo e dinheiro – solicitou a psicóloga, num dos testes que estava aplicando.
- Carro, tijolo e dinheiro – respondeu prontamente Rubinato.
Fizeram mais alguns testes, contas de subtração, desenhou algumas figuras e não conseguiu desenhar um relógio marcando 15h35min. Aliás, teve até dificuldade em colocar os 12 números e desenhar os dois ponteiros. Dra. Rose, a psicóloga, neste momento, não teve mais dúvida de que o cérebro de Rubinato estava apresentando problemas sérios. Para encerrar a sua avaliação, solicitou que repetisse aquelas três palavras que havia dito há 20 minutos. Rubinato não lembrava nem que fora incumbido de repetir e depois guardar três palavras. Fez um sorriso nervoso e disse que sua memória estava boa, só que nunca fora bom em guardar nomes e números. Quando precisava, pedia a Rosária para falar para ele.
Com o diagnóstico de provável doença de Alzheimer em fase inicial para intermediária, Dr. Geraldo prescreveu um medicamento apropriado, aumentando a dose gradativamente, para que o idoso não tivesse problemas gástricos. Só que os efeitos benéficos foram modestos e sua memória continuou piorando. Pior também ficou sua impaciência em esperar por alguma coisa. Passou a ficar cada vez mais grudado em Rosária. Se ela estava na cozinha, ajudando a empregada, lá estava o Rubinato. Se ela estava vendo a novela, mesmo que ele não entendesse nada, lá estava junto. Ela não podia sair de casa, logo ele aprontava e ia atrás dela. No início, Rosária achou até conveniente, pois podia tomar conta do marido e não precisava ver o que ele estava aprontando.
Dona Rosária não gosta de se lembrar daquele dia em que Rubinato… Vamos deixá-la contar:
- Foi um verdadeiro filme de horror! O homem deu para ficar ciumento. Eu tive que ir ao supermercado, cedinho, pois precisava comprar frango e alguns enlatados ainda para o almoço. Rubinato dormia e, antes de sair, falei para nossa empregada que tomasse conta dele e des-se seu café. Não ia demorar. Quando, na volta, apontei no início da rua, vi uma grande confusão na porta de minha casa. Rubinato, ainda de pijama, gritava meu nome e xingava todo mundo. Parecia possesso. Quando me viu, empurrou a empregada, que estava segurando no seu braço para não fugir e me agarrou com toda força. Queria saber porque saí sem falar com ele. Eu procurava acalmá-lo, tentando levá-lo para dentro de casa, morrendo de vergonha de nossos vizinhos. Foi nessa hora que ele desvencilhou dos meus braços e me deu um tapa na cara. Bem forte. Gente, como eu chorei de raiva naquela hora. Estava cansada de tanto cuidar do Rubinato e, no final de tudo, levar um tapa na cara! Ele nunca tinha feito isto em toda sua vida. Naquele instante, Maria do Céu chegou correndo, levantou a mãe do chão, ainda com a mão no rosto e chorando.
- Meu Deus do céu! Pai, o senhor não pode fazer isso com mamãe. Olha para ela, coitada, está chorando pelo tapa que o senhor deu.
Levou o pai para dentro, tratou de distraí-lo com as músicas sertanejas que ele tanto gosta e esperou o clima acalmar. Meia hora depois, não se lembrava de mais nada e lá estava do lado da Rosária, vendo o almoço ser preparado. Este acontecimento acordou os filhos para a nova e dura realidade. Os filhos estavam virando pais e os pais virando filhos. Combinaram, então, um rodízio diário, procurando ficar perto do pai, não deixando mais Rosária sozinha. Dr. Geraldo, ao saber desse fato, prescreveu um medicamento para reduzir a agitação e o ciúme de Rubinato. Aproveitou a ocasião da consulta e advertiu dona Rosária e Maria do Céu:
- Fica mais fácil aceitar toda essa agressão e agitação de Rubinato, quando sabemos que não é ele que xinga, que bate, que agita desta maneira. Rubinato nunca faria isto: QUEM AGRIDE É A DOENÇA!
Rubinato não conhecia mais os filhos e netos. Chamava Maria do Céu de mamãe. Realmente, ela era muito parecida com a falecida mãe. Assim, quando ele ficava nervoso, a situação se resolvia mais facilmente, quando a filha intervinha. Já Rosária… Essa ele nunca esquecia. Toda hora, perguntava por ela, queria ficar ao seu lado, só se sentia mais calmo se ela estava por perto. Foi muito difícil separá-los de quarto, já que Rubinato não aceitava de maneira nenhuma. Entretanto, Rosária tinha pedido ajuda aos filhos, ela já era uma idosa de 81 anos e não podia mais aceitar que o marido – todos os dias – lhe procurasse para ter relações sexuais. Foi doloroso acontecer esta separação dentro de casa. Mais doloroso ver Rubinato dormir a poder de calmantes, gritando, mesmo que grogue, seu nome noite adentro.
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Meu Deus, parece que estou lendo a historia de meu pai e minha mae.É tudo rigorosamente igual.Sou sozinha tb para cuidá-los.Mimha mae ja tem 76 e está se entregando.Estamos adoecendo junto c ele.Ele é tratado por neurologista e por um psiquiatra e a sensaçao que tenho é que qto mais remedios ele toma, pior ele fica.Sei que a história de dona Rosália nao é ficçao pq vivemos exatamente o mesmo drama.As vezes peço a Deus que tenha piedade dele e de nós e abrevie esse sofrimento e ao mesmo tempo me condeno por isso.Amo mto meu pai, faço de tudo para tornar menor o sofrimento dele e morro de pena de minha mae que ja está idosa, doente e nao tem mais sossego.
Esta narrativa, muito boa por sinal, exemplifica o que acontece com tantos idosos. Cuido do meu pai que tem Alzheimer e cuidarei ate o limite da minha capacidade. Felizmente, embora esteja na fase intermediaria da doenca, meu pai nao apresenta nenhum traco de agressividade, ao contrario, e muito pacifico. Por outro lado, nao tenho apoio de nenhum familiar como dona Rosaria tem, no dia a dia, so conto com a ajuda de Deus pra me dar forcas pra seguir nesta empreitada. Como tao bem disse a Rute “e muito importante a familia se unir nesse momento”
Oi .estava lendo ,fiquei muito triste ,imagino que diicil e para essa senhora ,porisso a importancia da familia se unir nesse momento bjs