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Publicado em: 03/05/2010

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Os mecanismos de defesa do cuidador familiar

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Os mecanismos de defesa do cuidador familiar Os mecanismos de defesa do cuidador familiar

Os mecanismos de defesa do cuidador familiar

Assim como os sentimentos de culpa, os mecanismos de defesa são outros fiéis companheiros do cuidador familiar de idosos. De maneira geral, estes mecanismos ajudam a manter o bem-estar psíquico do indivíduo, pois ajudam a manter a integridade do ego, ou seja, num nível inconsciente acabam por afastar da consciência conflitos e sofrimentos que acarretariam intensa dor ao indivíduo. Estes mecanismos se desenvolvem a partir da angústia, por isto, quanto mais forte a angústia, mais intensos serão os mecanismos de defesa que tentarão proteger o indivíduo.

Quando descobrimos que um familiar está acometido pela Doença de Alzheimer, passamos por um grande sofrimento, surgem angústias, conflitos internos e entre os membros da família. Tudo isto pode propiciar o surgimento de mecanismos de defesa, alguns dos quais serão apresentados a seguir:
Negação: “O diagnóstico que o médico deu está errado! Mamãe não tem esta doença, ela está bem, olha como ela está corada! Ela nem se esquece de tantas coisas assim!”. A pessoa nega o que está acontecendo, mesmo que tenha provas concretas do fato, pois o sofrimento é tão grande que ela não tem condições de aceitar o que está acontecendo. É um mecanismo comum em situações de doença grave do próprio sujeito ou de um membro da família, mas tende a acabar com o tempo.

Racionalização: “O comportamento de papai está se modificando deste jeito porque ele está nervoso de tanto ir a médicos!”. A pessoa cria razões para o que está acontecendo, as quais são apenas justificativas para um problema que se mantém.

Projeção: “Eu estou nervoso assim por causa de todos da minha família, sem exceções”. Seus próprios conflitos são sempre atribuídos aos outros, a culpa é sempre do outro.

Introjeção: “Mamãe está com Doença de Alzheimer porque eu me casei, constituí minha família, e deixei ela morando sozinha enquanto ela estava independente e saudável”. O contrário da projeção, neste caso a pessoa atribui a responsabilidade dos conflitos a ela mesma, mesmo nas situações onde ela não tem condições de ser responsabilizada por algo que aconteceu.

Identificação: “Meu pai tem a Doença de Alzheimer, tenho 20 anos, estou esquecendo muita coisa, o que indica que eu também já tenho esta doença horrível!”. O indivíduo assimila determinado aspecto ou característica para ele e passa a se apresentar conforme o modelo identificado, o qual pode não ser condizente com a realidade.

Formação reativa: “Minha mãe, portadora da Doença de Alzheimer, está totalmente dependente, e eu adoro alimentá-la igual alimento meu bebê!”. (Quando na verdade esta filha sofre muito ao ter que dar comida à sua mãe da mesma forma que trata seu bebê). A pessoa externaliza um sentimento, mas na verdade seus sentimentos são opostos a estes. Seus sentimentos são inconfessáveis.

Isolamento: “Não visito mais minha avó, portadora da D.A. Se ela não me reconhece mais mesmo, o que vou fazer na casa dela?”. Na verdade este neto pode não ter condições de lidar com a doença da avó e acaba por se isolar dela, numa tentativa de minimizar seu sofrimento. Este exemplo condiz com aquele ditado popular: “O que os olhos não vêem o coração não sente”.

Deslocamento: “Vovô (portador da D.A.) foi muito agressivo comigo hoje. Como ele é doente não pude revidar. Então cheguei à minha casa tão estressada e nem percebi que descontei tudo nas minhas crianças, mesmo sem elas terem feito nada de errado!”. Transferência de atributos de uma pessoa para outra, uma frustração que não pode ser revidada no momento é revidada em pessoas que não têm nada a ver com o acontecido.

Idealização: “Mamãe é uma santa, falar que ela tem algum tipo de defeito ou imperfeição seria um verdadeiro pecado!”. A pessoa atribui ao outro um modelo de perfeição, enxergando-o como um modelo ideal, o que não condiz com a realidade em todos os aspectos.

Regressão: “Meu marido é portador da D.A. Toda vez que percebo um sinal da doença em seu comportamento vou para a casa de mamãe chorar o acontecido no colo dela!”. A pessoa regride a etapas anteriores de seu desenvolvimento sempre que se frustra com algo acontecido.

A partir destes exemplos, fica mais fácil entender como estes mecanismos de defesa estão presentes na vida do familiar do portador da Doença de Alzheimer. Ele deve ficar atento quando estes mecanismos se repetem com muita frequência, o que pode prejudicar ele mesmo (que pode vir a demonstrar um sentimento de culpa tempos depois), o idoso doente (pois o cuidador acaba se afastando dele, não por maldade, mas por auto-defesa) ou os outros cuidadores (que assim ficando sobrecarregados).

Luciene C. Miranda

Psicóloga - lucienecm@yahoo.com.br

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4 comentários em “Os mecanismos de defesa do cuidador familiar”

  1. Luciene Miranda disse:

    Maria H., realmente é muito difícil fazer alguém reconhecer e dar valor a algo que fazemos com tanto esforço. O importante é que vc deixa claro que valoriza o que vc faz. Bom que vc está fazendo um acompanhamento, mas se sua mãe não aceita, deixe que ela mesma reconheça que necessita de ajuda. Lembre-se que é importante para o cuidador ter a ajuda de outras pessoas para não viver apenas em função do cuidado do idoso.

  2. Maria H disse:

    Boa noite,

    Meu pai recentemente foi diagnosticado com doençca de Pick. Há 2 anos havia sido diagnosticado Alzheimer. As 2 doenças são muito parecidas.

    Gostaria de saber como fazer outras pessoas da família, principalmente minha mãe, valorizar o meu trabalho de cuidadora, pois deixei minha carreira de lado para cuidar de meu pai. Como mostrar que o dinheiro não é a coisa mais importante, e sim o carinho, amor e paciência que dou para ele, todos os dias?

    Gostaria até de dizer a ela para consultar um terapeuta, mas qdo toco no assunto, ela fica muito brava. Na verdade, ela está constantemente nervosa, sendo que ela tem a vida dela normal, eu é que deixer de ter a minha. Eu tomo antidepressivo bem forte e isso me ajuda a me manter viva, pois constantemente me imagino enfiando uma faca na minha barriga…. ela devia tomar também, né?

    Adoro seus artigos, Luciene, me identifico com vários.

    Muito obrigada.

  3. Rozy, vc deve estar enfrentando uma situação difícil. Pelo que vc falou, é cuidadora sozinha. Cuidar de um idoso sozinha já é mto difícil, o que dirá dois, como é o seu caso.
    Estes sentimentos são comuns ao processo que vc está passando, o que poderia te ajudar neste momento é ter a ajuda de uma outra pessoa (seja familiar, amigo ou profissional, caso vc possa pagar pla prestação de serviços).
    Boa sorte…

  4. rozy disse:

    Olá, tornei-me cuidador de idoso de meus pais; ambos estão com 84 anos. Sinto-me perdida; meu humor oscila entre alegria, tristeza, frustração, dedicação, culpa, etc… Mas não posso desistir. Tento regair e resguardar um pouco de tempo para mim, minha vida, mas as vezes penso que não vou conseguir. Trabalho o dia todo; minha mãe está sofrendo de parkson, tento ler a respeito para melhor conviver, mas as vezes me desespero.
    Se alguem ler este comentário e quiser acrescentar algo que possa me ajudar, sou grata.

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