Publicado em: 23/05/2009
A sabedoria dos ensinamentos budistas me encanta e sempre que os “maremotos” tentam me desequilibrar, em meio às ondas do Alzheimer, busco-a para nela fortalecer meu espírito.
Nessas três últimas semanas, vivendo a minha incessante luta para oferecer à minha mãe as melhores condições para manutenção de sua qualidade de vida, tenho me deparado com a dificuldade de encontrar profissionais com perfil e capacitação para exercer as funções de um bom cuidador.
Foi assim que, um tanto angustiada pela situação, busquei reler trechos do ‘Livro Tibetano do Viver e Morrer’, de autoria do professor budista do Tibete – Sogyal Rinpoche e voltei a me emocionar com o belíssimo capítulo que discorre sobre a compaixão, cujo pequeno trecho que escolhi para dividir com vocês diz assim: “…a compaixão é uma coisa muito maior e mais nobre do que sentir dó. Quando você sente dó, as raízes desse sentimento estão deitadas no medo e num sentimento de arrogância e condescendência, às vezes até um presunçoso ‘ainda bem que isso não é comigo’.”
Em continuidade ao trecho acima destacado, o autor faz referência a Stephen Levine (autor e professor de meditação guiada e cura técnicas – ‘Healing’) que, de forma delicada e preciosa, faz-nos compreender o significado desse nobre sentimento:
“Quando seu medo toca a dor de alguém, torna-se piedade; quando seu amor toca a dor de alguém, torna-se compaixão’.”
Aqui no site, temos debatido sobre as qualidades e o perfil necessário para que se possa cuidar de nossos idosos. Falamos do respeito, da paciência, da dedicação, do carinho, do senso de humor e, sobretudo, falamos do amor. Hoje, quero falar e refletir sobre a compaixão.
Diante do entra e sai de candidatas – com ou sem curso de capacitação – que se oferecem para exercer a atividade de cuidadora de minha mãe, pelo que tenho observado durante os períodos de experiência, além de uma visão equivocada sobre a questão do que seja cuidar de alguém, a grande maioria demonstra inabilidade para exercer a profissão.
Explico: quando se encontra alguém com perfil que se encaixa nos níveis aceitáveis de educação doméstica, princípios éticos, noções básicas de higiene, faltam-lhe as habilidades específicas necessárias para interagir com o idoso portador de DA e a motivação para aprendê-las. Por outro lado, aquelas que se enquadram num perfil mais próximo do desejado, enfrentam o problema de não terem com quem deixar seus filhos, pois não há creches gratuitas e confiáveis para cuidar dos pequenos enquanto cumprem suas jornadas de trabalho.
Claro está que a questão social e cultural tem um peso significante quando levamos em consideração os níveis de escolaridade muito baixos, a precária situação econômica e o preconceito em relação aos idosos – principalmente os dependentes que são vistos como pessoas que já não mais possuem vontade própria ou direito a ter suas preferências.
A reflexão que pretendo estimular aqui é de que esse não é simplesmente um problema de profissionais com capacitação técnica, mas de se poder contar com pessoas que possuam habilidades próprias para lidar com a fragilidade humana.
Nos últimos tempos, tenho tido a sensação de que o ser humano – com medo dos próprios sentimentos e para não se arriscar a expor a sua própria fragilidade – torna-se aquele fazedor de tarefas sem muito envolvimento ou compromisso com o que faz. Percebe-se claramente o medo, a rejeição e a impaciência. Minha mãe também percebe e costuma demonstrar isso se recusando a ser tocada ou cuidada por aquela pessoa. Mas, vocês devem estar perguntando, o que tem isso a ver com compaixão?
Digo-lhes: tem tudo a ver! A compaixão de que nos fala o Prof. Rinpoche e que o Prof. Stephen Levine reafirma, nenhuma relação tem com pena ou piedade. A compaixão é o mergulho consciente no reconhecimento da nossa condição humana, sujeita aos mesmos ciclos de sofrimentos, fraquezas e fragilidades de qualquer ser vivente.
Ela é, portanto, a fonte de onde brota a solidariedade, o perdão, o serviço. É o “amar ao próximo como a si mesmo” como nos ensinou Cristo. Sem dúvida alguma, é a genuína e essencial sensibilidade que nos capacita olhar para outro ser humano, vendo a nós mesmos naquela condição e situação em que se encontra.
Enfim, conforme afirma Leonardo Boff em seu texto ‘Saber Cuidar – Ética do Humano’: “Tudo começa com o sentimento. É o sentimento que nos faz sensíveis ao que está à nossa volta, que nos faz desgostar. É o sentimento que nos une às coisas e nos envolve com as pessoas… É o sentimento que torna pessoas, coisas e situações importantes para nós. Esse sentimento profundo, repetimos, se chama cuidado.”
Meu grande abraço e uma boa semana para todos.
Gracinha Medeiros
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Eliane,
Obrigada por sua participação aqui no site. Pelo que pude entender do seu depoimento você está fragilizada diante da situação em que sua mãe se encontra. É natural sentirmo-nos impotentes ante o sofrimento dos nossos entes queridos e é aí que somos invadidos pelo medo. E são vários tipos de medo: medo de machucar o outro; medo de não saber lidar com a situação que é desconhecida para nós; medo de sermos atingidos pela mesma patologia e por aí vai.
Você me pergunta como reverter isso: bem, o que posso lhe dizer é que sinto todos os tipos de medos e isso me deixa muitas vezes insegura e fragilizada. Para lidar com os meus medos busco ajuda correndo atrás de informações: conversando com os médicos, lendo artigos, livros que tratem do assunto e tento falar com pessoas que estejam vivendo situações semelhantes à minha. Assim vou conseguindo me sentir mais segura e posso liberar o amor e o carinho que sinto por minha mãe. Espero que a minha experiência possa lhe ajudar.
Um grande abraço
Cito suas palavras:
“Nos últimos tempos, tenho tido a sensação de que o ser humano com medo dos próprios sentimentos e para não se arriscar a expor a sua própria fragilidade torna-se aquele fazedor de tarefas sem muito envolvimento ou compromisso com o que faz. Percebe-se claramente o medo, a rejeição e a impaciência. Minha mãe também percebe e costuma demonstrar isso se recusando a ser tocada ou cuidada por aquela pessoa. Mas, vocês devem estar perguntando, o que tem isso a ver com compaixão?”
Essa é a verdadeira descrição de como cuido da minha mãe. Como reverter isso?
Eliane