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Publicado em: 17/05/2009

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O alzheimer nos laços do amor

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Nas últimas semanas, vivemos o apelo emocional para as demonstrações do amor filial. Data marcada, lojas abarrotadas de produtos e de gentes se atropelando para a escolha do melhor presente, propagandas em todas as mídias a oferecer-nos todo tipo de vantagem nas compras, enfim, um corre-corre desenfreado para que não deixemos de homenagear nossas mães. Breve, será a vez do papai, depois Natal, e por aí vai…

Muito legal, isso, porque motiva as reuniões familiares! Nessa labuta diária que nos envolve, não mais sobra tempo para dedicarmo-nos às relações afetivas: da convivência companheira, do bate-papo cotidiano com nossos entes queridos.

Dessa forma, graças ao alardeado dia das mães no domingo passado, em diversos lares brasileiros – de uma forma ou de outra, com ou sem presente – as mamães viveram o dia em que os filhos, de perto ou de longe, buscaram um tempinho para prestar a justa homenagem! Apesar de não mais ‘saber’ o significado de datas como natal, aniversários, etc. minha mãe também viveu as homenagens do dia dela!

Enquanto o dia avançava, surpreendi-me imersa numa série de reflexões sobre os efeitos do Alzheimer na vida diária dos seus portadores e de todos ao seu redor.

Logo pela manhã, ao acordarmos, beijei-a muito dizendo que aquele era o dia dela – o dia dedicado às mães! Percebi que se entregava dengosa aos meus beijos, mas quanto às informações que lhe passava sobre aquela data especial, nenhuma reação demonstrava de entendimento ou de importância para ela.

Mais tarde, quando meus irmãos chegaram trazendo-lhe presentes, seu foco de interesse era disperso e buscava mais interagir de alguma forma com eles do que interessar-se pelo presente recebido. Meu irmão, com muito bom humor, observou: “ela gostou mais do papel colorido que envolvia a bolsa que lhe dei!” De fato, mesmo sendo louca por bolsas, o papel que envolveu o presente foi o grande alvo de seu interesse, segurando-o firmemente e exclamando: “que beleza!”, tornando-se vãos nossos apelos para que, ao menos, olhasse para a bolsa.

E foi assim que observando as embalagens dos presentes, lembrando os delicados arranjos de flores, meus pensamentos detiveram-se nos belos laços que os enfeitam ou prendem e, por analogia, me vieram à mente os laços afetivos que nos unem e nos embelezam a alma e o coração.

Eis alguns dos ensinamentos sobre a essência do viver e sobre as relações afetivas que, particularmente, acho que podemos assimilar ao conviver com os portadores do Alzheimer: primeiramente, minha atenção voltou-se para os nossos costumes sociais e a importância que damos ao cumprimento deles e de seus rituais.

Vejamos: em datas comemorativas, impossível não pensar numa reunião conjunta para o almoço ou jantar; igualmente fora de cogitação não se preocupar em comprar algo que agrade àquele que amamos e ofertar-lhe como presente. Tudo isso é muito bom, prazeroso e mais uma das muitas formas que encontramos para expressar o nosso afeto.

Convivendo com mamãe, percebo as perdas de autonomia, de memória, mas percebo também que há uma maior e mais intensa susceptibilidade emocional. Vejo-a mergulhada numa efervescência de múltiplos sentimentos e confusa sob a névoa de lembranças que se embaralham numa complexa mistura espaço temporal. A sensação que tenho é de que ela está a viver no universo genuíno do sentir, apenas SENTIR sem a explicação lógica do que sente.

Todos os dias, para ela, são datas especiais porque tudo parece sempre que está sendo visto pela primeira vez. É então que somos estimulados a adquirir um novo olhar sobre todas as coisas que nos habituamos a acreditar que já sabemos ou que já conhecemos. Curiosamente, isso nos exercita a encontrar novas formas de explicar o já explicado, de ensinar o já aprendido e, conseqüentemente, rever tudo aquilo que já nem mais enxergávamos por nos considerarmos detentores de um saber automaticamente internalizado.

Concluo, então, que no caso específico dos portadores da D.A., a data mais importante é hoje e o presente mais precioso é a presença daqueles que a eles estão ligados pelos laços do amor. São esses laços que embelezam a delicada sensibilidade de seus corações e prendem o foco da atenção em suas confusas mentes.

Em resumo: HOJE é sempre o dia especial a ser comemorado; HOJE é a data que ainda posso marcar no calendário da minha vida; HOJE é o dia em que ainda posso interagir com as pessoas que eu amo, rever atitudes, aprender algo novo, porque hoje é o tempo que – como disse o grande poeta Mário Quintana – “infelizmente… não voltará mais”.

Isso o Alzheimer me ensina: ao envolvê-la nos laços do amor – com paciência, carinho e atenção – torno-me o presente prazeroso que dá leveza e festividade ao dia-a-dia de mamãe.

Uma boa semana para todos.

Gracinha Medeiros

Gracinha Medeiros

- soriedem39@hotmail.com

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3 comentários em “O alzheimer nos laços do amor”

  1. Gracinha Medeiros disse:

    Olá Walter!

    O seu comentário ao texto que escrevi aquece o meu coração e reforça a minha crença de que nunca estamos sozinhos seja em nossas dores, seja em nossas alegrias. Cada vida tem a sua história única sob o ponto de vista das condições, circunstâncias e formas de se posicionar diante das situações que vão surgindo, mas nossas histórias são inegavelmente iguais nas dores, nas alegrias, nos amores, enfim, no nosso SENTIR. É o que João Cabral de Melo Neto nos disse em seu belo poema ‘Morte e Vida Severina’:
    “ Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida…”

    Fico feliz de sentir que sua mãe está em suas boas mãos. O seu amor por ela faz de você a pessoa mais competente do mundo para cuidar e zelar pela melhor qualidade de vida que ela possa ter. Vá em frente seguindo sempre o seu coração e desta forma o dia-a-dia de vocês dois vai ser pleno de amor e serenidade!

    Um grande abraço.

  2. Gracinha,

    Acabei de ler seu texto e em alguns momentos parecia que estava lendo minha própria história. Estou naquela fase em que não posso mais negar o que acontece e encarar os fatos é a única saída. Seu artigo foi muito útil, pois me ajudou a enxergar as coisas sob outro aspecto. De certa forma, me deu um norte no sentido de como agir. A parte técnica eu desempenho até que bem. Sou atento às necessidades da minha mãe, levo-a a consultas, mas no dia-a-dia ainda me sinto incompetente. O que vc mencionou sobre SENTIR e o HOJE me disse muito. Obrigado! Um grande abraço.

  3. Zulmira disse:

    Gracinha não há como traduzir em palavras o que senti ao ler seu artigo
    Maravilhoso, corretissimo, valioso, importantissimo, verdadeiro
    Parabéns pela forma poetica, tecnica e afetuosa com que vem colocando sua experiencia na convivencia com sua mãe

    Grande abraço
    Zulmira

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