Publicado em: 17/08/2009
Mergulho na vida enquanto caminho pelo tempo. Entre as águas revoltas dos últimos dois meses, pouco espaço me tem sobrado para fazer aquilo de que mais gosto: escrever!
Após seis anos, quando acompanhei meu pai durante o ano de 2003, voltei a viver a experiência das rotinas de hospital. Comparando as situações vividas naquela época com as de agora, com muito pesar constatei que as relações humanas sofreram um forte declínio.
Tudo começou em 16 de junho próximo passado com a hospitalização de mamãe que se estendeu até o dia 29 de julho, quando voltamos para casa em regime de home care, ou seja, internamento domiciliar. Estamos navegando em águas turvas, porém menos agitadas que nos dois meses passados. Tenho plena consciência de que iniciamos um novo ciclo em nossa jornada, com novas vivências e muitos aprendizados: acamada, com traqueostomia, sonda nasogástrica, colostomia e uma escara na área do sacro, finalmente ela está no conforto de nossa casa.
Nas salas de espera das UTIs, corredores e elevadores do hospital as muitas histórias e comentários que escutei, além dos diversos fatos que testemunhei a forma como familiares, instituições e profissionais da área de saúde enfrentam esses momentos tempestuosos principalmente quando se trata de idosos, deixaram-me com a nítida sensação de que a saúde humana está gravemente enferma.
No âmbito dos grupos familiares até que não houve mudanças drásticas, eu só diria que se tornaram mais explícitas. Incrível constatar que em se tratando de pacientes mais jovens, o clima dominante é de comoção e desespero, mas quando se trata de um idoso os comentários mais freqüentes são: também, o que mais se pode esperar de alguém com 92 anos de idade?! ou eu só venho ver quando posso, pois está sedado e não pode conversar ou perceber minha presença.
Muitas vezes, ali mesmo diante de estranhos , presencia-se a manifestação de um clima de desentendimento entre familiares, principalmente quando a questão é definir quem acompanhará o ente querido que está sendo encaminhado para um dos quartos da unidade hospitalar. E é assim que a grande maioria dos idosos ao ser transferido para leito comum recebe por acompanhante um cuidador recém-contratado. Medo, solidão, dor, somam-se ao desconforto físico formando uma mistura amarga que ajuda a tornar mais espesso o caldo do sofrimento.
Mais uma vez quero reafirmar a importância dos gestos, do toque carinhoso, da leveza e do bom humor como remédios eficazes contra a dor, o medo e a incerteza. Mesmo sedada, minha mãe reagia positivamente a cada horário de visita quando a tocávamos e falávamos com ela. Um dado interessante: quase me tornei a cantora oficial da UTI, pois a pedido de alguns pacientes já extubados dos leitos vizinhos, parentes vinham me solicitar para cantar um pouco mais alto as músicas que cantarolava para mamãe.
Já a questão da qualidade dos serviços prestados pela unidade hospitalar, confesso que me deixou muito assustada. Tenho a sensação de que quanto mais se avança no campo do conhecimento e dos recursos que permitem maiores possibilidades de cura, a qualidade do trato humano se deteriora em função dos lucros a serem auferidos.
Procurarei pontuar algumas das situações enfrentadas desde a nossa chegada no setor de emergência até a nossa saída, da forma mais objetiva possível, lembrando tratar-se de um hospital particular de grande porte, credenciado pelo plano de saúde pago por mamãe:
Setor de Emergência chegamos por volta das 23h30min e fomos instaladas num quarto com banheiro privativo. Ali varamos a noite de forma pouco recomendável num ambiente hospitalar: após o atendimento dispensado pela equipe de plantão, minha mãe ficou entre lençóis sujos de sangue e muco intestinal; não fizeram troca da fralda e ninguém pude encontrar para pelo menos esvaziar a lixeira do quarto que transbordava de lixo a se espalhar pelo chão. Somente ao amanhecer surgiu um técnico de enfermagem portando dois lençóis limpos e, para minha indignação, informou-me que naquele setor o hospital não liberava fraldas para uso dos pacientes.
UTI e quartos comuns o que mais me chamou a atenção foi o reduzido quadro de pessoal para os serviços de enfermagem em relação à quantidade de leitos ocupados, fato que se torna mais gritante ainda em finais de semana e feriados. Isso implica a demora no pronto atendimento quando há intercorrências; funcionários estressados por dobrar plantões e/ou pelo número de leitos que lhes são destinados para os serviços de praxe, resultando no cumprimento das tarefas de forma apressada e cheia de atropelos.
Durante todo o tempo, travei uma luta constante utilizando-me das prerrogativas do Estatuto do Idoso, para garantir um atendimento digno e eficaz para minha mãe. Fazendo meus jogos de cintura, busquei os setores de assistência social e de psicologia para reivindicar o direito de permanecer mais tempo ao lado dela. Consegui conquistar algumas vitórias, mas tive que engolir a seco outras coisas, dentre as quais a qualidade de atendimento profissional.
Conclusão a que cheguei: nosso sistema de saúde está completamente infectado pelo vírus do capital. Então que podemos fazer, vocês podem estar perguntando? Respondo com a pergunta feita num dos artigos recentes do Dr. Márcio Borges: Em quem você, caro internauta, vai votar no ano que vem?
Pensem nisso e uma boa semana para todos.
Gracinha Medeiros
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Veja o que está acontecendo nos Estados Unidos. O Presidente Obama está propondo mudança no sistema de saúde de lá. Interesses enormes opõem-se a isso. Leiam-se os jornais que tratam do assunto. E olhe que o Obama tivera esse dado na plataforma de candidato. Quandoestá colocando uma proposta que amplia os direitos de saúde a quase 50 milhões de excluidos dos “planos de saúde” a acusação é de ser “socialista”, um perigo para o “american way life”. Veja o filme “Sicko” do Michael Moore, onde se pode entender melhor o que diferencia “política de saúde” em países como Canadá e Ingaterra de um jeito e outros como Brasil e USA de outro (para falar de países onde há votos e democracia). Não é em quem votar. É saber que política de saúde éstá estabelecida, e os interesses que as sustentam.