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Cuidar de Idosos

Publicado em: 05/07/2009

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Nos limites do viver

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Acordo para mais um dia de intensas incertezas. Tenho medos, mas a minha fé na força vital do incognoscível, me fornece o suporte para seguir a travessia entre as marés desse agitado oceano da vida.

Olho para minha mãe cheia de tubos, fios, sondas e meus medos são insignificantes diante dos medos e dores que ela deve estar vivendo, à mercê dos médicos intensivistas e das máquinas frias que seguem apitando para sinalizar as irregularidades que vão surgindo em seu frágil organismo. Sinto o frio gélido da UTI arrepiando meu corpo e tenho vontade de tomá-la em meus braços para aquecê-la no meu abraço…

Sob o torpor dos medicamentos, vez por outra, seus meigos olhos verdes se abrem fixando-se nos meus: máquinas apitam sinalizando a elevada alteração dos batimentos cardíacos, a pressão se descontrola como se estivesse nos altos e baixos de uma montanha russa, seus lábios machucados movem-se inutilmente, sem chance diante do tubo de ventilação mecânica que lhe invade a traquéia e impede a articulação da palavra, do grito…

Estamos nós duas nadando ou tentando nadar entre as ondas gigantes de um tsunami que em 17 de junho nos atingiu, justo na data em que estaríamos comemorando os seus 95 anos de vida. Não havia escolha! Seu intestino bloqueado na parte mais alta por fecalomas e um pequeno tumor exigiram intervenção cirúrgica imediata.

Entre os discursos médicos, as variadas interpretações sobre o seu estado de consciência: uns reclamam da falta de interatividade, a ausência de comunicação. Falo sobre o Alzheimer, alguns parecem entender – ao menos parcialmente – sobre a particularidade da condição cognitiva, mas fico com a sensação de que não percebem a extensão dos efeitos que o estresse opera nos indivíduos portadores desse estado de demência. Uns até me escutam e me fazem perguntas, outros tendem a só me falar sobre a fragilidade de um organismo que já completou 95 anos de atividades: é o pulmão, o intestino, o coração, os rins, enfim cada um tem o olho fixo num determinado órgão ou no conjunto deles e me dizem da dificuldade de obter respostas aos estímulos verbais para melhor entendê-la. E lá vem o bombardeio de vários medicamentos, de sedativos e por aí vai.

Não posso estar ao lado dela o tempo todo. As visitas são limitadas: três vezes ao dia por um curto espaço de tempo – compareço em todos os horários. Saio para visitá-la com o coração aos pulos, volto para casa com muitos medos pelas dores e angústias, que muitas vezes percebo no olhar dela cravado no meu, mas não me deixo esmorecer: canto nossas músicas de todo dia, encorajo-a a não se entregar ao medo. Repito a todo instante que a amo muito, que ela não está sozinha, rezo as orações que ela sempre gostou de repetir, enfim – diante da impotência do meu agir – renovo minhas forças para transmitir a ela carinhos e confortos que possam – da forma que puderem – tranqüilizar sua alma assustada.

Todos os momentos em que estou junto dela, digo-lhe que não há força maior que as forças da vontade dela, da fé e da coragem que ela sempre manifestou e professou na sua trajetória de vida. Digo-lhe também que pode contar com a minha ajuda para que sua vontade seja respeitada a despeito de tudo e de todos.

Naquela tarde do dia 16 de junho, quando descemos para o nosso passeio no playground, como se estivesse adivinhando algo, ela olhou para mim e disse: “não me deixe sozinha, viu?” Nesse mesmo dia, às 23h30min, estávamos numa ambulância para darmos entrada numa emergência hospitalar.

Percebo-a assustada, mas ainda lutando para viver. É realmente uma montanha russa: seu organismo ora reage, ora regride. Nesse meio tempo já passou um período extubada e tudo parecia progredir para receber alta da UTI. Entretanto, no domingo último (31/05), ao chegar para a visita da manhã, encontro-a novamente entubada.

Apesar de já ter passado por experiências semelhantes com meu pai durante o ano de 2003, a dor de vê-la passar por tudo isso é inenarrável. Nas águas profundas do Alzheimer, os sentimentos dela estão lá agitando as ondas explodidas em tsunamis cujas cristas não conseguimos alcançar.

Mais uma vez estamos diante de novos aprendizados sobre a vida e o viver. Mais uma vez a sabedoria budista me serve de farol para reencontrar a necessária serenidade e aceitação dessa condição inelutável que é a constante impermanência de todas as coisas no curso de nossas vidas. E, como se fora uma espécie de mantra, leio, releio e repito mentalmente as reflexões extraídas de um texto budista intitulado ‘As Quatro Nobres Verdades’ que versa sobre ‘As Cinco Coisas Que Não Se Pode Realizar’ conforme transcrevo a seguir: “Há coisas neste mundo que ninguém pode realizar: primeira: evitar a velhice, quando se está envelhecendo; segunda: evitar a doença, quando o corpo é predisposto à doença; terceira: não morrer, quando o corpo deve morrer; quarta: negar a dissolução, quando, de fato, há a dissolução do corpo; quinta: negar a extinção, quando tudo deve extinguir-se. Todas as pessoas no mundo, cedo ou tarde, apercebem-se destes fatos e, consequentemente, sofrem, mas aqueles que têm ouvido o ensinamento de Buda não se afligem, porque sabem que estes fatos inevitáveis são, verdadeiramente, inevitáveis”.

Uma boa semana para todos.

Gracinha Medeiros

Nota do Editor: Todos nós, do portal CUIDAR DE IDOSOS, estamos solidários com Gracinha Medeiros e sua mãe, Dona Zezé. Muita força para vocês duas, neste trecho acidentado da caminhada!

Abaixo, o mantra budista da Medicina:

“Eliminar não somente as dores das doenças físicas, mas ajudar também na superação das doenças interiores, principalmente do apego, do ódio, do ciúme, do desejo, da ganância e da ignorância.


Gracinha Medeiros

- soriedem39@hotmail.com

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2 comentários em “Nos limites do viver”

  1. gracinha medeiros disse:

    AGRADECIMENTO

    Aos amigos companheiros do portal CUIDARDEIDOSOS, o meu carinhoso e emocionado agradecimento pela solidariedade e conforto espiritual manifestado na delicadeza das palavras e no presente especial deste vídeo com o belíssimo mantra budista da medicina que só vem somar força e sabedoria às nossas vidas.
    E a você, meu irmão Tácito – que bem compreende as dores que estamos experimentando nesse momento delicado de nossa mãe – o meu beijo carinhoso pelo comentário aqui registrado.
    Para todos nós o mantra: TAYATHA OM BEKANDZE / BEKANDZE MAHA BEKANDZE / RANDZE SAMU GATE SOHA.

  2. Tácito disse:

    É verdade tudo isso. Companhia torna ameno o caminho (menos difícil para ambos os caminhantes): o caminho de todas as grandes e nobres verdades. Não é fácil espairecer a angústia.
    Tácito

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