Publicado em: 11/04/2009
Lá vem ela, passinhos curtos, corpo alquebrado – mas não vencido –, lutando sempre pela elegância e altivez da postura… Lá vem ela buscando os olhares, o elogio, o carinho e a ternura… Lá vem ela trilhando os marcos dos 90 km de estrada da vida, serpenteando os abismos da memória que se esfuma entre as brumas do tempo…
Sim, senhores, eis a menina fagueira renascida após o banho de cada manhã, arrumada nas suas melhores vestes e portando todos os acessórios da vaidade feminina… Orgulhosa da sua caprichada toillete, com brilho nos olhos, ela se detém à porta da biblioteca, ansiosa pela minha atenção e pelas palavras de elogio que lhe direi.
Sinto uma avalanche de ternura irromper do fundo da minha alma e, mergulhada num oceano de alegria, dirijo-lhe gracejos que sempre a fazem rir com respostas muitas vezes surpreendentes às minhas propositais provocações, reafirmando não apenas a sua presença de espírito, mas a vitalidade jovial do bom humor.
Certo dia, ao exaltar a sua beleza, perguntei-lhe para onde ia assim tão bonita? Se por acaso estava, àquela hora da manhã, já pensando em sair para namorar?
Ela me olhava com um riso nos lábios, um olhar de menina traquina e prontamente me respondeu: “vou sim!” Continuando o nosso joguinho de provocações, acrescentei: – Mas isto é muito assanhamento! Isto não são horas de namorar! Foi então que soltando uma gostosa gargalhada ela retrucou: “ora, ora minha filha, vou aproveitar a vida!”
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É assim que, no dia-a-dia, vamos tocando o nosso barco, sempre buscando impulsioná-lo com os remos da alegria. Sim! Ela quer aproveitar a vida! Quer ser notada, quer o carinho, o abraço, a brincadeira, o elogio, a proteção… Ela quer amar e se sentir amada!
Todos os dias, esse ritual se repete: ao passar pela sala onde arrumei a biblioteca de meu pai e nela instalei o meu computador, ela pára no limiar da porta e estica o pescoço à minha procura. Às vezes, finjo que não percebi e ela então se anuncia: “Ei! Psiu!”– não sossega, nem arreda o pé enquanto não a olho e corro para abraçá-la.
É dessa força vital que hoje quero falar: dessa alegria brincalhona, que descontrai as tensões e dá leveza ao coração. Herdei de meu pai essa natureza bem-humorada. È claro que muitas vezes me zango, fico triste, mas o meu mau humor não dura muito tempo. Sempre fui adepta de uma boa risada e, nesse ponto, eu e meu pai éramos mestres na brincadeira: sempre ríamos muito, até de nós mesmos.
Já a Dona Zezé fazia parte do bloco dos sérios e vez por outra nos criticava por causa das risadas, repetindo o velho chavão: “muito riso, pouco siso!” Aí é que está o mais maravilhoso de tudo: hoje é ela quem busca a brincadeira, chegando até mesmo a me perguntar se estou doente ou zangada quando, por algum motivo, passo por ela um pouco mais séria que de costume.
Nesses seis anos já passamos por muitas fases. As dificuldades de comunicação sempre estiveram presentes, entretanto – nos primeiros tempos – ela ainda possuía um acervo vocabular bem mais inteligível. As frases podiam ser incompletas ou as palavras podiam ficar soltas no ar, mas com um pouco de boa vontade ainda conseguíamos – vez por outra – chegar perto daquilo que ela estava querendo dizer.
De 2004 a 2006 vivemos mais intensamente os distúrbios do sono, os pânicos, as agitações. Nos primeiros meses senti muita insegurança e impotência por não saber como lidar com as situações. Entretanto, eu não pensei nunca em desistir e, aos pouquinhos, fui encontrando o jeito de ir chegando mais perto dela, fui mergulhando até onde me é permitido nos vazios em que se encontra.
A isca que encontrei para fisgar sua atenção foi explorar a sua vaidade. Ela sempre gostou de se enfeitar, de estar bem vestida e discretamente maquiada. Assim, recomendo aos cuidadores auxiliares que deixem ela mesma escolher a roupa, os adereços e faça a própria maquiagem, mesmo que isso leve um longo tempo. Nossa interferência é a mínima possível, só um leve toque para conduzi-la nos momentos em que percebemos estar confusa. É impressionante como fica concentrada e ativa nesses momentos!
Com a auto-estima elevada e reforçada pelos elogios que lhe dirigimos, percebi um fortalecimento da autoconfiança, consequentemente, aumentou o grau de confiança em nós e a força de resistência nos momentos de crise tornou-se mais branda. Ao se sentir o centro das atenções, sendo sempre ouvida mesmo que não entendamos o que está a dizer e respeitada em suas vontades expressas, o humor dela aflorou com alegria ficando muito à vontade para participar das brincadeiras que vamos tecendo junto com ela.
Como se pode ver, nem só de abismos e tsunamis vive-se no oceano do Alzheimer! Há muitas maneiras de se chegar à crista das ondas e encontrar a leveza necessária para seguir o repuxo das correntezas…
Uma Feliz Páscoa para todos!
Gracinha Medeiros
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É mais que maravilhoso, Luciene, eu diria que é fundamental! Todo ser humano precisa sentir-se reconhecido e valorizado no meio em que vive. Creio mesmo que grande parte das ocorrências de agressividade ou depressão nos idosos ou mesmo em pessoas com algum tipo de dependência,deve-se à frustante sensação de não ser mais percebido como um ser capaz de agir e ter vontades e sentimentos próprios. Minha cunhada, falando-me do pai dela, que aos 80 anos submeteu-se à cirurgia para colocação de pontes de safena, contou-me o seguinte: ao sair do hospital, ele foi se recuperar na casa de uma das filhas e começou a apresentar um quadro depressivo, mesmo sendo tratado com toda atenção e carinho. Ela e os irmãos resolveram então atendê-lo no desejo de voltar para a casa dele. Pois bem, assim que chegou em casa adquiriu uma nova vitalidade e conversando com os filhos disse: “eu estava sendo muito bem tratado por todos, mas era tão paparicado que já não me deixavam fazer mais nada – até qdo queria pegar uma revista para ler, todo mundo corria para pegá-la para mim… ”
Boa páscoa pra vc também!
Beijos
Gracinha, impressionante como promover a auto-estima é importante em qualquer fase da vida, não é msm? Certa vez li um artigo que relatava um projeto de intervenção realizado por acadêmicos e enfermagem numa ILPI e, dentre os resultados, os pesquisadores puderam perceber uma melhora na auto-estima das mulheres institucionalizadas que passaram a andar com uma postura melhor, preocupar-se com a alimentação, maquiar-se e vestir melhor. Isto não é maravilhoso? E pelo que vc está relatando, isto ultrapassa os domínios do Alzheimer..
Boa páscoa!
bjo