Publicado em: 28/01/2012

Meu pai tem olhos castanhos...
Naquele dia, num olhar desamparado, percebi que tudo seria diferente… Você deixaria de apoiar a voz da razão, deixaria de ser a referência e agora seria eu a ajudá-lo a caminhar.
Seu aspecto físico tinha mudado, perda de peso, a lentidão para realizar tudo, a sua expressividade de criança. Por ainda ser meu pai e, às vezes, se comportar como tal, em situações de decisão para dizer “sim” ou “não”, eu te respeitava. Quando voltava para mim este olhar confuso, eu sabia, no meu coração, que a realidade agora era outra.
Às vezes, eu vejo você vagando ao redor da casa, de um lado para o outro, parar e voltar seus passos, reiniciando a marcha, em busca de algo… que novamente desaparece de sua mente e que não importava mais.
Depois de algum tempo, não conseguimos mais conversar normalmente , como se o papo ficasse para terminar depois. Você sempre comentava sobre sobre política, sobre as manchetes do jornal. Hoje, eu sinto falta da sua capacidade de articulação, de sua sabedoria e de sua ironia.
Aproveito seus momentos de lucidez e e lembramos momentos felizes que passamos juntos. Tentando manter seus amigos, você vai para as reuniões com a sua turma, mas eles percebem seu vazio e te tratam de forma diferente.
O dia parecia pequeno para tantas e importantes atividades, distribuindo ordens e orientando nossa família nos mínimos detalhes. Hoje você, gentil, obedece minhas solicitações e sempre me mostra esse olhar vazio para receber uma nova ordem.
No momento, eu sei que você está penando para resolver a confusão que ficou sua cabeça. Os objetos em torno de você têm um nome, embora às vezes não se lembre o nome deles. Sabia mexer no barbeador elétrico que eu comprei, mas agora se barbear se tornou uma tarefa impossível.
A cor dos olhos de meu pai é castanho.
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Reflexões de um idoso sobre a vida e a perpectiva de seu fim
Conversando com uma pessoa idosa, que expondo todos os seus sentimentos em relação a vida bem vivida, as coisas que deixou de fazer e que já não há mais tempo em virtude da idade e da expectativa de vida de que somos conhecedores, fiquei além de emocionada, pensando que é uma fase de muitos sentimentos e que precisamos dar todo o apoio possível, todo o nosso amor e carinho nesta fase tão conflitante, onde a certeza da morte é presente e constante, e o medo, não da morte literalmente, mas da perda de seus queridos e amados, é cruel. Quando pensamos na morte pensamos na perda dos que se vão e hoje percebo que os que estão por ir também sentem o mesmo medo, das coisas que deixaram de fazer, tudo isto mexe muito com a cabeça de uma pessoa que está nesta fase da vida. Como auxiliar?
Fico pensando em como me preparar para quando chegar a minha vez. Quando uma pessoa está infeliz, me parece ser mais fácil esta etapa, ela aceita com mais facilidade, mas quem está justamente nesta época aproveitando tudo o que a vida pode dar, tem uma família que a ama e que a respeita tem planos muitos da qual o tempo não é aliado, isto sim é sofrido.