Cadastre-se no site

Primeira página

Seções

Profissões

Doenças

Condições

Cursos

Dicas

Vídeos

Redes Sociais

Cuidar de Idosos

Publicado em: 12/08/2010

A- A+

Linguagens do corpo, da alma, do coração…

  •  Favoritos
  •  Assinar feed
  •  Receba por e-mail
  •  Link para este post
  •  Notificar erro
  • Enviar para amigo

  •  

Linguagens do corpo da alma do coração Linguagens do corpo, da alma, do coração...

Linguagens do corpo, da alma, do coração...

Nota do Editor: Voltamos a publicar este artigo de nossa querida Gracinha Medeiros. O motivo é especial: sua querida mãe, dona Zezé, faleceu recentemente. E relembrar, para todos nossos internautas, este lindo depoimento de uma filha cuidando de sua mãe, é mais que uma justa homenagem para essa mulher guerreira e que deu um exemplar significado à sua vida: dona Zézé. Um grande beijo no coração de toda a equipe do CUIDAR DE IDOSOS, Gracinha Medeiros! Deus te ilumine e te dê muita força!

——————————————————————————————————————————

Tenho pensado muito e ao contrário do que muitos julgam – nos últimos tempos, tenho vivido mais intensamente! Emoções, afetos, relacionamentos fraternos, amorosos, adquiriram novos aspectos e sob uma perspectiva mais abrangente, a vida ganhou um novo significado.

Meu olhar cinqüentenário encontra o olhar da criança que fui e me vê crescendo, adolescendo, amadurecendo, envelhecendo… meu pai, minha mãe… a vida seguindo seu curso… meus amores, meus medos, minhas alegrias e dores.

Olho para minha mãe e sinto a alegria de vê-la ainda viçosa no humor, na relativa autonomia que ainda possui – caminhando conosco e mantendo conservada a força de sua auto-estima. Entretanto, a comunicação verbal é cada vez mais vaga e imprecisa…

Percebo com clareza que o portador do Alzheimer é um guerreiro solitário travando uma luta constante e inglória contra o vazio do esquecimento… No mundo das palavras, seu campo de ação torna-se cada vez mais estreito e limitado para que possa dar vazão ao império dos sentidos. Já no universo do sentir a vida pulsa estrondosa e vibrante, sem subterfúgios nem fronteiras!

Assim, quando o repertório das palavras se evapora, voltamos a descobrir a forma única com a qual todo o universo se comunica: as linguagens do corpo, da alma, do coração! Aliás, pensando bem, não foi assim que nascemos – vazios de qualquer palavra, analfabetos de qualquer idioma?! E mais: também não ‘conhecíamos’ as pessoas que nos abordavam nem tínhamos idéia de nomes, lugares ou qualquer referência de tempo, de espaço… no entanto, o universo dos sentidos sempre funcionou com muita intensidade, não é mesmo?

Dessa forma, diante dos silêncios, das palavras desconexas, dos pequenos gestos, das posturas corporais, dos mínimos detalhes das expressões faciais ou do foco do olhar, vou conseguindo encontrar pistas indispensáveis para detectar se minha mãe está confortável ou padecendo de algum mal-estar.

Nesse reaprendizado da linguagem universal, com a qual todos nós nascemos, a intuição aflora e somos envolvidos por uma capacidade de percepção muito além do alcance da nossa visão comum. Há uma expansão do campo da sensibilidade, que nos permite redescobrir a importância do toque carinhoso, do abraço aconchegante, do beijo espontâneo, do olhar cheio de ternura, da delicadeza dos gestos.

Com paciência, espero o tempo que for necessário para que minha mãe possa assimilar as mensagens e, por si mesma, execute as ações ou me forneça as informações de que preciso para melhor ajudá-la em momentos difíceis de crise ou de mal-estar – como na situação que relato a seguir:

Certa noite, após deitar-se, continuou de olhos abertos. Como sempre, deito junto dela e espero que adormeça. As horas foram avançando e resolvi perguntar se estava sentindo alguma coisa. Olhou-me dizendo – “o quê?” – e soltou um gemido. Perguntei se estava sem sono. Respondeu-me: – “não entendo. Não sei…” Respeitando-lhe o silêncio, fiquei quieta, abraçada com ela e lhe acariciando os cabelos…

Alguns momentos depois soltou mais uns gemidos e me disse: – “Vou lhe perguntar uma coisa…” (pausa) “Vixe, eu não sei…” (pausa) “Quero que você me (palavra ininteligível)… Pausa e mais gemidos, desta vez, passando a mão na barriga. Perguntei então se a barriga estava doendo. Ela apenas me olhou com expressão de dor. Pus a minha mão na barriga dela e insisti: – Dói?.. Dói aqui? … É dor: ai! ai! ai! aqui? Ela disse: – “quê?” (pausa) “Não entendo”… “Não sei…” e continuou a gemer, olhando-me com ar de quem não sabe o que dizer.

Esse jogo de perguntas, silêncios, respostas vagas e alguns gemidos continuou, sem que eu pudesse me situar sobre o que estava acontecendo ou que providência deveria tomar. Quando lhe disse que iria sair para procurar um remédio, ela reagiu: – “Não! Não saia agora não!… Quero lhe perguntar…” (pausa). Esperei um pouco e disse: – O que quer saber? Entre pausas, silêncios, ela disparou a falar: – “Não sei…” “Não entendo”… “Ô meu Deus!”… “Fico pensando…” “Quero me lembrar…” “Não sei…” “Tenho medo…” “Às vezes acho que… tô maluca… que Deus me livre!” (pausa longa) “Não sei se casei se não casei…” “Ah meu Deus!…”

Sentindo-lhe a angústia na agitação do corpo dela contra o meu, abracei-a forte, fui ouvindo, respondendo às perguntas e buscando acalmá-la : – Eu estou aqui com você! (ela ficou me olhando)… Você não está sozinha! (continuou me olhando)… Você não está maluca! Depois ficamos em silêncio… Enquanto a beijava e acarinhava, ela se aconchegou no meu abraço, gemeu um pouco e, após um tempo, adormeceu…

Um abraço a todos e lembrem-se: assim como “o essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry) somente o coração expressa e traduz a linguagem da alma!

Gracinha Medeiros

- soriedem39@hotmail.com

Avalie este artigo

1 Estrela2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas 6 Voto(s)
Loading ... Loading ...

11 comentários em “Linguagens do corpo, da alma, do coração…”

  1. maria josé disse:

    Bom dia. É dificil ter um parente com alzheimer. Pela primeira vez na minha familia, tenho uma irmã de 79 anos com essa doença. Nunca tive muito contato com ela, pois ela sempre foi de genio dificil e não queria visitas. No começo desse ano ela teve um surto, tirou a roupa, e foi preciso chamar o Samu e a policia. Então foi internada numa casa para idosos e como nenhum irmão quiz cuidar dela, eu me ofereci para isso. Tenho lido sobre o alzheimer para entender como lidar com ela. Ela é viuva e não tem filhos. Tenho feito o que posso por ela, mas ela não gosta de nada, acha que estou mandando nela. A gerente da casa onde ela está internada me diz que tudo que ela diz é por causa da doença. Gostei muito de ler o que as pessoas escreveram, com isso me ajudaram muito. Abraços.

  2. rozy alves disse:

    Gracinha, só um coração sensível é capaz de traduzir os sentimentos… é o que posso concluir após esse depoimento. Obrigada por compratilhar… abraços.

  3. ana paula disse:

    Gracinha, transportei-me para o seu depoimento vivenciando os fatos narrados. Lembrei-me de um tempo dificil em minha mãe sofria as angústias de um coração amofinado. Junto ao seu leito eu tentava acalmála em suas crises de depressão que sempre eram acompanhadas por sintomas fisicos que foram se agravando com o tempo. Quatro AVCs, foi o resultado de uma vida muito sofrida, mas que graças à Deus, mais a sua vontade de viveras consequências foram reduzidas apenas a uma paralisia parcial. Amigos,que possamos nos abrir para a linguagem universal, pois a mesma um dia será usada em sua plenitude. Somos aquilo que pensamos + sentimentos de amor = LINGUAGEM UNIVERSAL. Amo estar com minha mãe, amo cuidar de idosos, exercito e aplico sempre a terapia do toque, especialmente com idosos portadores de demências.
    Um grande abraço para todos

  4. Leilian disse:

    Fiquei muito satisfeita com as orientações que aqui encontrei. Minhas dúvidas continuam em relação as falhas de memória de minha mãe (77 anos) viúva há 4 anos, e está cada vez mais esquecida. O neurologista que acompanha-a não confirma o diagnóstico de Alzheimer. Mas tenho certeza que os cuidados que prestarei a partir de agora serão o melhor de mim.

  5. Gracinha Medeiros disse:

    Ao Dr. Márcio e a todos os integrantes da equipe CUIDAR DE IDOSOS o meu emocionado agradecimento por essa manifestação de apreço, carinho e solidariedade.
    Por mais que a gente se aprofunde nos conhecimentos, que a firmeza da nossa fé nos sustente, não há como não sentir a dor da separação física, esse vazio gritante deixado pela ausência daqueles que amamos.
    Minha mãe, amiga e companheira se foi de uma maneira suave e tranquila. Estive junto dela o tempo todo e quando acariciando seus cabelos disse-lhe que a amava muito e que partisse em paz, ela exalou seu último suspiro, sem feições de dor ou de agonia.Foi como uma chama que se apagasse naturalmente por ter acabado o combustível. Isso me confortou muito e me deu força para vesti-la com a roupa mais bonita de que gostava e a maquiei como sempre gostou de se enfeitar.
    A minha dor e fragilidade de agora é porque ainda queria poder abraçá-la mais, beijá-la mais e ver o sorriso maroto que mantinha nos lábios e no olhar sempre que eu falava com ela. Isso acabou e eu tenho que me acostumar com isso.
    Obrigada, portanto, pela linda homenagem que me fazem; nessa demonstração de afeto e amizade eu resgato os carinhos que sinto falta de trocar com ela.
    Meus beijos e meu carinho para todos vocês.

  6. gracinha medeiros disse:

    Olá Maria!

    Obrigada por sua visita ao site, pela sua participação e o carinho das suas palavras.
    Fico feliz por saber que sua mãe recuperou a saúde e você tem a bênção de ainda tê-la a seu lado. E que alegria ela deve sentir por poder contar com uma filha como você! Nossos pais, nossos idosos, merecem de nós todo o amor que pudermos oferecer.
    Todo o meu carinho para você e sua família.

  7. NOSSA! QUE LINDO QUI VC ESCREVEU,EU TENHO MINHA MÃE AINDA GRAÇAS HA DEUS.1 MES , ATRAS ELE SOFREU 3 PARADA E UM INFARTE,ELA TEM 80 ANOS,E SOBRE VIVEU GRAÇAS A DEUS;;;MAS ,QUANDO VIR MINHA MÃE ENTRE A VIDA E AMORTE, EU CAIR EM TERRA,POIS NAQUELE MOMENTO VIMOS TD A PERDER.NOSSA COMO TIVEMOS MEDO, DE TD ,SENTIMOS DESAMPARADO NAQUELE MOMENTO.
    MAS DEUS NOS PRESENTTEOU MAIS UMA VEZ COM A VIDA DELA,
    HOJE JOELHAMOS E AGRADECEMOS A DEUS HA TUDO NA VIDA.MAS SER SINCERA ,AINDA TEMOS MUITO MEDO DE PERDE-LA,DESCULPA EU ESTAR FALANDO TUDO ISTO,ACHEI MUITO LINDO O QUE VC ESCREVEU SOUBRE SUA MÃE E SEU PAI;;OBRIGADA POR NOS PRESENTEAR COM SUAS ESCRITAS.BEIJOS

  8. gracinha medeiros disse:

    Obrigada, Patrícia, por sua participação aqui no site.
    A vida é que é sábia, nós apenas precisamos ouvir com a alma, ver com o coração e usar o nosso corpo para servi-la da melhor maneira que pudermos.
    Um abraço

  9. patricia disse:

    Sabio e emocionante o seu depoimento.Sem mais palavras…Dispensa qualquer comentario…

  10. gracinha medeiros disse:

    Lu, acredito piamente que somos o que sentimos. O mundo das palavras é um maravilhoso código de comunicação. Por meio delas podemos expressar o que estamos sentindo mas só o corpo traduz com fidelidade as nossas sensações mesmo que estejamos tentando escondê-las: um olhar triste, sereno ou angustiado; uma mão suada, uma palidez facial, um rubor facial, ombros encolhidos, etc. etc.
    Enfim, gosto muito de uma máxima atribuída aos ensinamentos dos sábios hebreus
    em Provébios, XXIII,7: “O homem é aquilo que ele pensa em seu coração.”
    Beijos

  11. Luciene Miranda disse:

    Gracinha,
    Vc falou de um tema que eu semrpe falo com os meus alunos: a importância da comunicação não-verbal no ambiente hospitalar.. E sem dúvida isto também é “disciplina obrigatória” para quem vai cuidar de idosos (e crianças tb). Na maioria das vzs esperamos a comunicação apenas pelo canal das palavras, das frases completas, mas nem sempre isto é possível.. Aí recorremos a gestos, suspiros, olhares, enfim, quaisquer pistas que possam aliviar a angústia de quem quer passar uam mensagem a alguém e também daquele que espera interpretar a linguagem do outro. Aí, Gracinha, vc tem toda razão.. cabe o canal do amor, do respeito, da confiaça, comunicação esta que é universal e não depende de idiomas específicos.
    Bjos

Quer adicionar uma foto no seu comentário?

Entre no site gravatar.com, crie uma conta e faça o upload da sua foto.

Comente

  • Nenhuma citação para este post.

Enquete

Você sabia que o novo CLASSIFICADOS PROCURO CUIDADOR agora também anuncia empresas e profissionais de saúde?

Ver Resultados

Carregando ... Carregando ...

Mapa
© 2010 Cuidar de Idosos. Todos os direitos reservados. Reprodução sem permissão não é permitido.

© 2012 CUIDAR DE IDOSOS

Recomendamos também a leitura de: