Publicado em: 26/08/2009
Em continuidade ao artigo anterior, nos momentos mais difíceis devemos parar para pensar no quanto somos humanos. Nós somos humanos, nossos amigos são humanos e até nossos inimigos, se estes existirem, são humanos. Por isto tentamos, acertamos, erramos, envelhecemos, até que um dia esta vida humana chegará ao fim.
Os homens, os animais e as plantas, quando conseguem completar o curso esperado de seu desenvolvimento, nascem, crescem, desenvolvem-se, reproduzem, envelhecem e morrem. Pode soar triste se pararmos para pensar o porquê deste ciclo vital. Por outro lado, parece ainda mais difícil refletirmos que muitos daqueles que já passaram por nós e já faleceram não completaram este ciclo: alguns morrem antes de envelhecer, outros antes de deixar descendentes, outros quando ainda são pequenos, e outros nem mesmo chegam a nascer.
A vida é assim, início, meio e fim. Normalmente as coisas aqui na Terra começam e terminam. Sabemos pouco sobre o início, já que ninguém se lembra do momento em que nasceu, porém sabemos a data e tudo o que os outros nos contaram sobre este evento. Por outro lado, será impossível saber quando estamos passando pela metade do nosso curso de vida, como temos a certeza, ao olhar um relógio que marca meio-dia de que aquele dia está em sua metade. Da mesma forma, será impossível sabermos com precisão qual será o exato momento em que daremos nosso último suspiro.
Talvez vocês já tenham escutado as pessoas comentarem: O médico deu ao fulano apenas seis meses de vida, coitado!. Numa das vezes que ouvi esta fala de uma tia-avó já idosa, não hesitei em responder: Então feliz da fulana (uma amiga dela que teve um diagnóstico de câncer em estágio avançado, mas que a doença ainda não estava interferindo em sua qualidade de vida), pois nós não temos certeza de que vamos viver seis meses. Talvez daqui a alguns minutos não estaremos mais aqui! Ela ficou um tanto espantada com meu comentário, parecia não entender ou não querer aceitar de que não temos um contrato com tempo pré-estabelecido aqui na terra. Por infeliz coincidência do destino, pouco tempo depois esta tia adoeceu e veio a falecer em poucos meses, antes mesmo desta amiga que estava desenganada e que viveu mais de seis meses.
Enfim, a vida é incerta, e são estas incertezas que nos trazem a alegria de viver num mundo em constante modificação e tristeza por não sabermos o que de ruim nos aguarda. É a vida!
Não sei se vocês já pararam para pensar, mas normalmente a morte de uma criança nos choca mais que a morte de um idoso. Costumamos nos confortar com a idéia de que o idoso já cumpriu sua missão e que aquela criança ainda estava no início de sua caminhada. Será que é isto mesmo? Como podemos saber se alguém já cumpriu sua missão de vida?
Da mesma forma, parece ser menos doloroso aceitar a morte de uma pessoa que já estava doente, sofrendo, do que a morte repentina de alguém que gozava de boa saúde, independente de sua idade. Parece que o sofrimento sensibiliza a pessoa que padece e aqueles ao seu redor, de forma que a morte parece ser a mocinha da história, o único alívio possível para aquele sofrimento naquele momento. O oposto acontece quando a pessoa estava bem, já que a morte surge como a vilã que tira a vida de alguém ainda sedento de viver.
Pensar na morte pode nos trazer sofrimento, mas em algumas situações isto parece inevitável. Procurem prestar atenção, mas normalmente não costumamos dedicar muito de nosso tempo pensando na nossa própria morte ou na morte daqueles que queremos bem. Passamos a pensar na morte quando adoecemos ou alguém que gostamos adoece, quando alguém conhecido vem a falecer, quando nos deparamos com um acidente ou com alguma notícia a este respeito e finalmente quando paramos para pensar que estamos envelhecendo ou que aqueles que nos são queridos já estão idosos. O aumento das rugas, dos cabelos brancos, os primeiros sintomas de alguma doença relacionada ao envelhecimento são sinais visíveis de que a vida é finita e que talvez seu limite não esteja tão distante quanto antes podia parecer.
Sabemos que a morte é inevitável. Os avanços na medicina e na área das ciências têm proporcionado a cura de muitas doenças e tratamentos que garantem uma maior sobrevida para aqueles portadores de doenças que ainda são incuráveis, porém o ser humano não é imortal. Como dizem algumas pessoas mais velhas e bastante sábias, a morte é a única certeza que temos nesta vida. Isto é verdade.
Temos que ter a humildade de aceitar que nenhum de nós é eterno, que um dia esta vida terá fim e, principalmente, que, por mais doloroso que possa ser, a morte faz parte da nossa vida, assim como o nascimento, o crescimento, a reprodução e os outros eventos normalmente tão esperado pelas pessoas.
Luciene C. Miranda
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Gracinha, como é bom saber que meus ‘rascunhos’ podem inspirar seus belos escritos.. e mais uma vez mto obrigada por nos dividir a vasta sabedoria do seu pai. bjos
Lu,
uma vez meu pai me disse que tudo o que há para viver e buscar ser feliz só é possível se estamos prontos e inteiros para usufruir o AGORA – esse exato instante em que ainda estamos existindo, pois o ANTES já passou e não temos como voltar a ele e o DEPOIS é sempre incerto. Disse-me ainda que a sabedoria consiste em ser feliz com o que temos disponível nesse AGORA, ou seja, lamentar o que perdemos ou ansiar pelo que ainda não conseguimos alcançar é perder esse momento único das nossas vidas.
Confesso que levei um tempo para assimilar como aplicar isso em minha vida e voltei a debater com ele várias vezes essa idéia para ouvi-lo me dizer que eu buscasse amar sempre mas que nunca me apegasse a coisa alguma. Tenho tentado praticar isso, nem sempre é fácil, mas toda vez que o desânimo me ameaça lembro dessas conversas e consigo libertar o que estou tentando prender dentro de mim e para mim.
Creio que saber viver a vida é praticar o desprendimento e assim aprenderemos a aceitar com mais leveza a idéia da nossa finitude.
Obrigada pelo comentário ao meu texto e quero lhe dizer que este seu excelente artigo inspirou minhas reflexões para escrever o meu.
Beijos