Publicado em: 07/03/2010
Após conviver com meu pai, que foi portador da Doença de Alzheimer, pude compreender que lidar com um idoso acometido por esta doença é um exercício constante da paciência. E a paciência não é uma virtude de todos. Ela sempre deve ser trabalhada, de forma a deixar a pessoa mais apta a lidar com situações desafiadoras e que requeiram muito tato e paciência para solucioná-las.
Alzheimer é uma verdadeira prova da paciência do cuidador. Uma prova de fogo que lhe é testada diuturnamente. Paciência para responder a mesma pergunta por N vezes; para se apresentar para aquela pessoa que a conhece desde que você nasceu; para tirar de perto do alcance do idoso todos os objetos que poderiam ser um perigo potencial para ele e para os que o rodeiam; para lembrar-lhe aquela palavra que lhe fugiu da mente no momento de uma conversa; para vestir-lhe adequadamente; para, mesmo com sono, passar a noite em claro, pois o idoso não está conseguindo dormir; para contornar aquela doentia vontade de ir embora que aparece todos os dias; para o conter quando ele fica agressivo; para fazer tudo sozinho, sem a ajuda de ninguém; para explicar para as pessoas que se assustam com o seu comportamento que aquilo são sintomas de uma doença muito ingrata; para ensinar-lhe tudo o que ele aprendeu enquanto criança e não se lembra mais de nada.
A impaciência é a inimiga mortal da paciência e irmã gêmea da agressividade, da impulsividade, da falta de educação, da imperfeição, da pressa, do imediatismo e finalmente do sentimento de culpa por ter tomado uma atitude impaciente capaz de ofender os outros.
Infelizmente a paciência tem encontrado um espaço cada vez menor em nossas vidas, já que precisamos fazer coisas demais e temos cada vez menos tempo para fazer tudo.
Recentemente estava no elevador de um prédio comercial. Além de mim e do ascensorista também estava uma mulher de trinta e poucos anos. O ascensorista fez o elevador esperar para subir (a mulher começou a demonstrar impaciência olhando para o relógio e batendo um pé no chão insistentemente) até que vejo o motivo da sua espera: duas senhoras traziam uma senhora bem idosa numa cadeira de rodas, as quais entraram no elevador e agradeceram o ascensorista por terem esperado-as. As três estavam muito bem vestidas, inclusive a senhora, que ficou posicionada de frente ao espelho. Assim que viu sua imagem refletida no espelho ela começou a sorrir e gritar alto palavras a princípio ininteligíveis, até que a senhora que empurrava a cadeira sua filha entende o que ela diz e fala com ela: Ah, você está falando que está vendo a vovó aí, né?. Nisso a senhora sorri, faz que sim com a cabeça e continua a sorrir e conversar com a vovó que ela via em sua frente: sua própria imagem refletida no espelho que ela já não dava mais conta de distinguir. Nisso ela continua a falar muito alto e eu já consigo entender quando ela diz: Mamãe, olha e aponta para o espelho. Sua filha carinhosamente lhe dá um beijo na testa e diz emocionada: Hoje eu sou sua mãe, né? Ontem você que era a minha, mas tudo bem, a gente troca, eu não me importo. Percebi que ela e a outra que a acompanhava ficaram com os olhos cheios de lágrimas. Realmente foi uma cena emocionante. A impaciente que também estava no elevador parecia um pouco assustada com o que estava acontecendo e ao mesmo tempo incomodada com sua demonstração gratuita de apressada segundos atrás, ela sequer levantava a cabeça.
Saí no elevador pensando naquela família, a mãe havia se tornado filha, a filha se tornou a mãe, a idosa que via a sua própria imagem e pensava ser uma vovó desconhecida. Realmente a Doença de Alzheimer é muito triste, faz a pessoa perder todas as suas referências, inclusive aquelas ligações mais íntimas e afetuosas que se desenvolveram ao longo dos anos. Além do amor para lidar com isso, a paciência também se faz muito necessária. Já imaginaram se esta filha fosse impaciente com a mãe naquele momento? Ela poderia ficar ainda mais confusa, exaltada e ao final de tudo isto a filha poderia se sentir culpada por não ter sido paciente com sua própria mãe.
Esta filha já deve ter aprendido com a experiência que ficar nervosa não soluciona o problema, pelo contrário; gritar não faz o idoso escutar melhor, pode sim assustá-lo ainda mais, da mesma forma que ignorar suas palavras pode fazer o mesmo efeito. Em síntese: precisamos ter a capacidade de compreender que algumas situações dependem de nós, porém, existem outras que não dependeram de nós para acontecerem e também não dependerão só de nós para que sejam solucionadas. Algumas coisas acontecem a seu tempo, independente de nossa atuação, nestes casos a impaciência só pode deixá-las ainda piores. A Doença de Alzheimer é uma destas coisas.
Luciene C. Miranda
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Denise, pelo que vc deixa claro, vc percebe que, após esta internação, sua mãe está passando por algumas mudanças que podem ser sinal de alguma patologia. O primeiro passo é leva-la ao médico (geriatra ou neurologista) para ver se realmente há algo errado. Como ela está tendo essas reações dinte de você, o ideal, a princípio é se afastar um pouco, deixndo claro que está sempre disponível para ajudá-los. Ficar muito presente neste momento pode deixá-la ainda mais irritada com você.
Olá.
Minha mãe foi internada por 10 dias com Insuficiencia Cardíaca até então desconhecida, sofreu muito com edemas generalizados. Fiquei todo o tempo ao lado dela, sozinha, pois meu irmão mora longe e meu pai também é muito doente. Só podia contar com a empregada há mais de dez anos na família para me render no hospital. Após a internação, eu havia convencido a tal empregada, antes diarista – 3 x por semama, a trabalhar todos os dias e obviamente aumentando-a em mais um salário. Deste momento em diante, minha mãe voltou-se contra mim e nutre agora um ódio irrascível a ponto de ter me insultado várias vezes inclusive me expulsado de sua casa por duas vezes, pois perco minha paciência e acabo discutindo com ela, por não me conformar com acusações e ingratidão. Fico chateada porque larguei minha família e até mesmo me prejudiquei no trabalho para acompanhá-la no hospital…mas sei que não devo ter mágoas em relalão a ela que deve estar com estresse pos traumático ou alguma doença neurológica pior. Porém, estou preocupada e com pena de meu pai…está no momento segurando uma barra pesada,pois ela o agride mas ainda o consegue suportar.
Tenho consciência de que deverei tratá-la como uma criança – apesar de seus 75 anos – mas não sei quanto tempo afastada deverei dar a ela pra que possamos recomeçar. É prudente eu aguardar que ela ou meu pai me procurem ( coloquei-me à disposição deles pra qualquer coisa e ligo todos os dias ) ou devo insistir e aparecer em sua casa mesmo que minha presença a faça ter ataques de ira?
SOlicito orientação. Obrigada.
Oi! Minha sogra tem o mal de alzheimer, está com 86 anos. É muito agressiva e xinga atoa, faço de tudo para ficar calma ela tem atitude de criança ruim como sempre ela foi, defendia sempre o filho muito errado e até me agredia. Hoje estou separada do filho dela, mas ele não me deixa sossegar,quer que eu ajude ele a tomar conta dela e não sai de minha casa eu tenho um filho de 23 anos que é deficiente intelectual e moro em uma das casa que pertence a ela por usufruto e ele meu ex marido, bebe muito é inseguro tem a casa dele e não sai de minha casa. Largou uma mulher a 3 meses e já bebia muito agora piorou, ele é pai de meus 3 filhos. E tenho horror aos dois e estou desesperada. Jogo ele para fora com ela e ele volta horas depois, como se nada tivesse acontecido.
Sonya, primeiramente vc e sua mãe devem se conscientizar que seu pai porta uma doença que pode ser grave, pode colocar a vida dos outros e a dele em risco (devido a esta agressividade) e que ficar brava ou falar verdades com ele não adiantará, pois ele não se dá conta do que está fazendo e é provável que logo se esqueça td o que foi falado com ele.
A hipótese de um cuidador (mesmo que em meio período) é a mais viável, msm que ele não goste mto da idéia no início, pois não há como viver sozinha neste estado de apreensão (assim não há paciência que dê conta).
Só fique mto atenta (e alerte sua mãe) pq um paciente neste estado pode ser realmente mto perigoso! Converse com o médico que o acompanha sobre essas reações dele, há remédios que podem amenizar os sintomas.
Dra Luciene
Este seu artigo sobre o exercício da paciência me chamou a atenção, então decidi te contar minha história, e te confessar que acho que não possuo essa qualidade de paciência ao extremo então que faço?
Meu pai tem 81 anos, Alzheimer e demência vascular. Cuidar dele tem sido um desafio diário e sem fim. Ele nunca tentou fugir de casa, não é tão repetitivo, mas é extremamente agressivo e já tentou agredir e até esganar (fisicamente) a minha mãe, tambem com 81 anos, ela está apavorada e com muito medo dele, não quer nem mais dormir com ele, mas na menor hipótese de separar a cama dos dois é uma crise insuportável. Já dei-lhe uma bronca daquelas quando ele tentou esganar minha mãe, mas vi que não surtiu, nem surtirá efeito. Não tenho condições de interná-lo pois é muito caro, e tenho medo que judiem dele. Além disso, sequer posso imaginar como ele reagiria diante da possibilidade de ser internado…
A verdade é que eu não tenho mais paz,(sou solteira, sem filhos e moro com eles) durmo sempre em alerta, com as portas abertas, não posso mais sair de casa e deixá-lo sozinho com minha mãe. Se tenho que ir ao supermercado, viajar, ir ao medico pra mim ou para eles, tenho que levar os dois comigo, e estar sempre preparada para largar tudo e voltar pra casa correndo, com medo da reação dele. Não tenho com quem deixar, já pensei na possibilidade de contratar uma pessoa, mas estou certa de que ele não aceitaria ficar com uma desconhecida. A qualquer mudança de situação a reação dele é imprevisivel mas sempre muito agressiva. O mais curioso é que com as outras pessoas ele sempre se mostra uma pessoa bacana, legal, sorridente,(ele era assim!), mas basta a pessoa virar as costas eu e minha mãe sofremos com sua agressividade.
Onde posso renovar o estoque da minha paciência? E como devo conseguir ensinar isso pra minha mãe nesta altura da vida?
***Nossa muito lindo esse artigo….
Descobrimos q meu avô tem DA , e ta sendo muito dificil….Ver a pessoa q amamos passando por isso é lastimavel!!!! Mas ao ler seu artigo me incentivou a cuidar ainda melhor dele…OBRIGADA!!!!
Alice, fico feliz que o artigo tenha servido pra vc. Um abraço
Nossa ! Esse artigo não podia ter vindo em melhor hora. Minha mãe tem demência senil e, por muitas vezes, me pego sem paciência, sem tolerância. “Precisamos ter a capacidade de compreender que algumas situações dependem de nós, porém, existem outras que não dependeram de nós para acontecerem e também não dependerão só de nós para que sejam solucionadas”.