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Publicado em: 31/05/2009

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A vida nunca envelhece

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“A Providência nos conduz com tanta bondade em todos os diferentes tempos de nossa vida, que quase nem os sentimos. Essa encosta desce brandamente, e é imperceptível; é o ponteiro do relógio que não vemos caminhar. Se, aos vinte anos, nos dessem o grau de superioridade na nossa família, e se nos fizessem olhar num espelho o rosto que teremos ou que temos aos sessenta anos, comparando-o ao dos vinte, cairíamos para trás e teríamos medo dessa figura; mas é dia após dia que avançamos; estamos hoje como ontem, e amanhã como hoje; assim avançamos sem sentir, e este é um milagre dessa Providência que tanto amo.” (Madame de Sévigné* – trecho transcrito do livro ‘ A Velhice’ de Simone de Beauvoir)

A Marquesa de Sévigné – século XVII – em cartas escritas à sua filha, exprime com muita simplicidade e clareza uma constatação muito interessante: por mais que os anos passem, que o nosso corpo envelheça, a sensação da vitalidade interior que nos anima parece continuar imune aos desgastes do tempo e se estivermos bem de saúde, não nos sentimos – melhor dizendo – não nos pensamos velhos.

Refiro-me aos sentimentos, aos desejos, aos sonhos… Percebo isso em mim, assim como percebia em meu pai e agora, mais que nunca, em minha mãe. Resumindo, eu diria que percebemos a velhice do outro, mas não a nossa.

Mesmo sabendo que o Mal de Alzheimer desde o início afeta de forma contundente a memória mais recente e que só no estágio mais grave ocorre a perda total das lembranças mais remotas, acho impressionante como minha mãe – a Dona Zezé que breve fará 95 anos –, expressa essa forma de se ver e de se sentir em sua marcha pelo tempo.

Embora atualmente – devido ao lento mas gradual avanço do estado de demência – seja mais raro conseguir comunicar-se com a fluidez de pouco tempo atrás, sempre que pode manifestar-se, alguns relatos que farei a seguir ainda acontecem.

Quando saímos para passear, a depender do estado de ânimo, ela fica atenta a tudo que vê e, de forma inteligível ou não, tece algum comentário, registrando em voz alta tudo o que consegue perceber inclusive sobre as pessoas que passam ao largo: se são gordas ou magras, se são velhas ou moças, se são bonitas ou feias, barrigudas ou não e até mesmo das nádegas ou seios grandes ela fala.

Interessante é que não deixa passar nada e o mais engraçado é a forma como o faz: falando baixinho para que a pessoa comentada em questão não possa ouvir, um sutil ar de crítica que a expressão facial demonstra no disfarce do olhar, cochichando ao meu ouvido e advertindo-me para não olhar nem rir. Ela fica olhando séria para os que passam, depois desvia o olhar e, com um risinho nos lábios, me diz em tom baixo: “olha esse velho(a) coitado(a)! A cara toda enrugada! Eu?! Deus me livre de ficar assim quando eu ficar velha!”

Outro meio de observarmos tal comportamento é quando se vê no espelho: a reação é de desconhecer a imagem, não identificando como sendo dela mesma. Bem, isso é uma das características do portador de Alzheimer: além de não se reconhecer, acredita que está diante de uma pessoa real e geralmente acha que é a mãe dela. Isto acontece muito quando entramos no elevador social aqui do prédio que possui um espelho grande ao fundo. É muito interessante: ela abre um enorme sorriso e me diz: – “olha quem está aqui! Você já falou com a minha mãe?” E, olhando para o espelho, tenta pegar nas mãos, no rosto da imagem, buscando estabelecer um diálogo: “ Tá bonita! Como vai a senhora? A senhora chegou hoje foi? A senhora vem comigo?” Rindo muito, olha p’ra gente dizendo: “ olhem, é a minha mãe!” O problema é fazê-la sair do elevador, pois quase sempre resiste por querer ficar com a mãe ou argumenta não querer deixá-la sozinha.

Há dias, entretanto, em que o sentido de realidade está mais apurado e ela briga com o seu reflexo no espelho, ao perceber os `pés de galinha` no canto dos olhos, a papada debaixo do queixo… Certa feita – um tanto aborrecida – pedia que lhe déssemos algo com que pudesse cortar aquela pelanca feia que estava grudada no pescoço. Da mesma forma reage diante de fotos em que aparece já envelhecida, principalmente as mais atuais… No entanto, todas as fotos em que aparece mocinha – na faixa dos 19/20 anos, imediatamente se reconhece e diz: “sou eu aqui!”

Percebe-se então que quer queiramos ou não, o tempo passa e ele nada mais é que a estrada por onde a vida trafega desde o mais remoto instante de qualquer ínfimo componente do Universo. À revelia de nossas crenças, essa força dinâmica que nos impulsiona fluindo dentro e fora de nós, é atemporal, ininterrupta e, por mais que avance a ciência, jamais conseguiremos capturar a fluidez dessa jornada incessante que sempre nos ultrapassa numa velocidade estonteante.

Meu grande abraço e uma boa semana para todos.

Gracinha Medeiros

(*Marie de Rabutin–Chantal ou Marquesa de Sévigné (1626 – 1696) destacou-se na literatura francesa pelas cartas escritas à filha, nas quais deixou registrados seus pensamentos sobre a vida e os costumes da época que foram publicadas sob o título Memórias.)

Gracinha Medeiros

- soriedem39@hotmail.com

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Ainda sem comentários em “A vida nunca envelhece”

  1. gracinha medeiros disse:

    Edmar,

    Obrigada por sua participação aqui no site. Se bem refletirmos podemos resumir o pensamento da seguinte forma: é a VIDA que anima o corpo e não o contrário. Por isso nossos sonhos, nossos sentimentos, nossos desejos jamais envelhecem ou sofrem os desgastes do tempo. Se nosso corpo vai se desgastando, a sabedoria adquirida ao longo das experiências vividas, vai nos tornando mais serenos e encontrando os caminhos por onde nossos sonhos podem nos levar à alegria e ao prazer de viver!
    Um grande abraço

  2. edmar disse:

    esta coisa co envelhecimento , físico e uma doideira, pq. sabemos, ou melhor insisto que o envelhecimento e so da carne mas e os instintos sexuais que em mim não envelhecem, o espírito não envelhece, sera karma
    edmar

  3. gracinha medeiros disse:

    Você tem razão, Lu. Nós mulheres somos mais cobradas em termos de beleza e juventude. É aí que se dá o conflito e a sensação de perda daquela imagem “atraente”. Outro dia estive pensando nisso e me dei conta de que não mais temos vivo na memória o rosto exato que tínhamos aos 15 anos por exemplo. Isso Mme Sévigné coloca muito bem: “estamos hoje como ontem, e amanhã como hoje… avançamos sem sentir…”. Costumava brincar com meu pai dizendo que nosso corpo ao penetrar na fase do envelhecimento vive uma nova “adolescência”, não é verdade? A grosso modo seria: na primeira os hormônios aceleram suas atividades e entram em campo; na segunda, eles começam a bater em retirada…
    Um beijo

  4. Luciene Miranda disse:

    Gracinha, acho q além de notermos as mudanças no rosto o que incomoda ainda a nós, mulheres, são as mudanças que ocorrem em nosso corpo.
    Engraçado que já tinha pensado em falar um pouco disso na próxima semana, acho que o seu belo artigo serviu como incentivo..
    bjos

  5. gracinha medeiros disse:

    Maria da Glória,

    Obrigada por sua participação aqui no site. Que belo exemplo é o vigor do seu pai!Pois é, é assim mesmo! Meu pai, que faleceu aos 97 anos, sempre manteve um vigor invejável e só no ano em que faleceu é que deixou de andar após um período mais longo que passou na UTI.
    Ele sempre dizia que era um idoso e não um velho, afirmando que o espírito jamais envelhece!
    Um abraço

  6. Maria da Glória disse:

    Caiu como luva para mim esta observação de que a gente só vê a velhice nos outros e não na gente. Tenho 66 anos e moro com meu pai, que está com 89. Ainda se vira muito bem e anda sozinho, pela nossa cidadezinha do interior do Paraná.

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