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Cuidar de Idosos

Publicado em: 25/07/2009

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A dor de cuidar de alguém que já lhe causou dor

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Certas experiências nos marcam por toda a nossa vida, principalmente aquelas que nos trazem muitas alegrias ou sofrimentos. No caso de experiências ruins, estas situações podem ser ainda mais marcantes se acontecerem nos primeiros anos de vida, no seio familiar e se ocorrerem frequentemente. Episódios de violência familiar – seja ela física ou psicológica – são alguns destes exemplos que podem refletir anos após sua ocorrência, podendo trazer conseqüências até mesmo no fato de cuidar de um idoso que necessita de cuidados por parte da família. O relato de uma filha e cuidadora nos faz sentir mais próximos com esta situação delicada (transcrito na íntegra):

“Ser cuidadoso de idosos é uma m…, meu pai machucou-me a vida inteira, abusava de mim, da minha irmã abandonou a família e agora fica aqui que nem um coronel, se suja, mexe em tudo, na minha casa, só faz o que não gostamos, atrapalha nossa vida, machucou minha mãe a vida inteira, fez mal pra toda família nos abandonou e agora eu tenho que ficar aqui, cuidando dele. Que m…!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Nem me relacionar bem com os homens, com as pessoas, não confio nas pessoas, é culpa dele.”

Em alguns artigos já falamos das dificuldades enfrentadas pelo cuidador que se sente vítima dos sintomas da Doença de Alzheimer, que deixa sua vida em segundo plano para cuidar de um familiar, que assume esta função sozinho, sem a ajuda de ninguém, mas não foi citado um caso ainda mais especial: o do familiar que se vê literalmente obrigado a cuidar de um familiar do qual ele guarda algum ressentimento em função de situações ocorridas em seu curso de vida.

Além da árdua tarefa de cuidador familiar – na maioria das vezes uma jornada de trabalho de 24 horas/dia, sem descanso semanal remunerado, sem férias, sem décimo terceiro salário e sem a possibilidade de pedir demissão de seu cargo – nestas situações o familiar tem de lidar com seus próprios fantasmas, lembranças dolorosas, medo, raiva e revolta. Ele precisa enfrentar tudo isto para cuidar de um familiar idoso, não porque ele quer ser cuidador, ou por que ele sente prazer por poder retribuir algo que este familiar fez por ele no passado. Ele assume ou é levado a assumir esta responsabilidade apenas por obrigação, por não ter outra opção a não ser resignar-se e, a despeito de seus sentimentos, cuidar daquela pessoa que não mais tem autonomia para dirigir sua vida, que depende de alguém para viver com dignidade.

Mais do que ninguém, este cuidador precisa muito de ajuda: da família, para que possa dividir um pouco esta tarefa tão custosa (mesmo que para todos eles seja difícil); de profissionais multiprofissionais, para que cuidem do bem-estar deste cuidador (talvez a escuta de um profissional da psicologia poderia ser válida) e de um cuidador profissional, para que também seja mais uma pessoa para cuidar deste idoso (por ser uma pessoa imparcial, que não carrega as mesmas mágoas em função do passado).

De qualquer forma, vale sempre a pena lembrar aos familiares que passam por esta situação que eles não estão sozinhos: assim como eles, várias pessoas também cuidam de pais, maridos, esposas, avós, tios e outros que não foram exemplares ou cuidadosos com eles enquanto ainda eram jovens. Porém, a vida dá voltas e neste momento eles são as vítimas (geralmente de algum tipo de doença que, de uma forma ou de outra, deixa-os limitados), eles são quem precisam de cuidados. E quando alguém acaba por assumir esta responsabilidade ele mostra que, independente do passado, dos sentimentos de raiva, de revolta e de amargura, esta pessoa mostra que, na verdade, independente de todas estas marcas negativas que possa carregar, no fundo ela também consegue demonstrar sua solidariedade e, mais tarde, ter a consciência tranqüila por ter feito o que estava ao seu alcance (mesmo sentindo que com isto estava ultrapassando seus limites pessoais).

Finalizo com as palavras de Vieira (1996), quando elucida que o ato de cuidar não deve ser visto apenas como uma obrigação ou uma retribuição forçada aos cuidados recebidos enquanto eles eram crianças e dependentes. Vínculos afetivos familiares satisfatórios e bem estruturados antes da doença são fatores que direcionam como será a dinâmica de cuidados.

Infelizmente, nem sempre estes vínculos são satisfatórios, o que parece tornar a tarefa de cuidar ainda mais difícil para o cuidador.

Luciene C. Miranda

Vieira, Eliane Brandão (1996). Manual de gerontologia. Guia teórico-prático para profissionais, cuidadores e familiares. Rio de Janeiro, Revinter.

Luciene C. Miranda

Psicóloga - lucienecm@yahoo.com.br

8 comentários em “A dor de cuidar de alguém que já lhe causou dor”

  1. Sueli, obrigada pela participação. Adorei sua idéia de um encontro de cuidadores! Muito interessante msm. Talvez podemos pensar, a princípio, em um encontro virtual, aqui msm no site, o que vc acha?
    Tenha certeza de que vc não está soziha neste oceano, existem mtas pessoas passando pelas msm situações, aqui msm vc pode ver alguns relatos.
    Participe mais vzs, um abraço.

  2. Sueli Bravo disse:

    Todos os comentários que li são interessantes e, no caso da Cleide, a parebenizo pela conduta. Temos que passar por cima das nossas mazelas e fazer a nossa parte da melhor maneira possível. Sei que é muito difícil para algumas pessoas conseguirem superar as frustrações do passado. Tenho essa experiência na familia. Na verdade, pelo que observo de tudo isso, é que a doença se manifesta em vária fases da vida. Quem sabe se esses doentes de hoje, que causaram tanta dor e sofrimento aos seus familiares no passado, já não tinham essa doença incubada? Tudo fica nominado de “PESSOA DE GENIO DIFÍCIL”, quando na verdade é uma DOENÇA. Esse assunto é por demais complexo. Sugiro fazermos um “Encontro Nacional de Cuidadores” para trocarmos experiências e “figurinhas” a respeito de nossas “crianças”. Estou vivendo um momento de total resignação. A minha vida está toda voltada para cuidar da minha mãe e, acima de tudo, tentar evitar que o meu pai venha a sofrer do mesmo mal pois fico aflita ao vê-lo pelos cantos chorando inconformado com o sofrimento da minha mãe. Colocou duas pontes safena há um ano atrás e agora levei-o a um Neuro para uma avaliação. É tudo muito difícil!!! Sinto-me sozinha no meio do Oceano. O pior é que nem sei nadar!!! Boa sorte a TODOS!

  3. Cleonice, fantástica sua observação!!! Seu paciente foi extremamente lúcido, ele tem toda razão, não existe lei que nos obrigue a amar alguém, independente de quem seja. E se cuidar já é dificil quando existem os laços de amor, imagina o quanto a tarefa se torna mais difícil se estes laços encontram-se gravemente abalados?

    Helenice, parabéns por comentário tão pertinente. A maneira como tratamos nossos idosos sem dúvida reflete a maneira como as crianças irão os tratar no futuro. Seu comentário será a base para o artigo desta semana.

    Cleide, que bom que vc encontrou aqui um espaço para se expressar. Tenho certeza de que o seu perdão de traz uma maior serenidade, mas sem dúvida é muito difícil cuidar de alguém que já nos fezmal de alguma forma. Você teve uma postura muito ética de não trazer isto tudo a tona agora, quando seu pai depende de vcs para td e não tem mais condições de se manifestar. Boa sorte!

  4. Olá
    estou a divulgar o nosso blogue que ainda se encontra em cosntrução mas que faziamos imenso gosto que o adiciona-se nas suas hiperligações para que os seus leitores tivessem conhecimento. Caso o pretendam faremos o mesmo.
    Cordialmente
    Ricardo Pinto
    http://obem-estar.blogspot.com/

  5. Laecy de Aquino Soares disse:

    Estou precisamdo de trabalhar, sendo assim vou deixar um recado neste blogue

    Tenho vasta experiência profissional como cuidadora de idoso
    Possou ainda cursos de:
    1)Socorrista
    2)Cuidadora de Idoso

    Favor contatar:

    (021) 7118.8744
    laicysores@hotmail.com

  6. Cleide disse:

    Também tive problemas com meu pai quando criança, adolescente e hoje ajudo a cuidar dele que esta com demência. Penso que já o perdoei, porém não posso negar meu desconforto em ter que ajudá-lo a ir ao banheiro e ter que asseá-lo em suas partes intimas. O restante é mais fácil. É uma luta que travo comigo mesma. Outras pessoas da família não entendem esse meu procedimento e ainda me criticam por isso. Ninguém nunca soube o que me ocorreu e nessas alturas da vida se contasse seria muito triste, uma espécie de vingança, os outros talvez ficassem com raiva dele e não seria bom para sua saúde.

  7. Helenice disse:

    Luciene:
    Admiro a pessoa que tem coragem de expor-se desta forma, contribuindo muito para a abordagem do assunto. Acredito que existem muitas pessoas, felizmente não é o meu caso, que ao lerem o artigo sentiram um apoio para conviver com sentimentos desta natureza. São coisas difíceis de sentir e muito mais de falar… Cuidar de um ente querido com demência, além de tarefa árdua que prescinde de desprendimento e afeto, é também muito triste por todos os dias vermos aquele que amamos e que invariavelmente foi até nosso herói quando criança, se comportando como uma pessoa louca. Tento passar para meus três filhos esta consciência, falando com eles sobre a vovó deles (portadora de Alzheimer) e do carinho que tenho por ela, incentivando-os a fazer o mesmo. No início demonstravam até medo dela, agora com o convívio se entendem com ela com mais facilidade que os adultos. Lembro-me sempre de uma estória (espero que seja com “e” mesmo) que a filha agredia seu pai com um pau e certo dia o mandou embora. O pai saiu com o pedaçõ de madeira na mão pela estrada e o neto correu até ele e pediu que ele deixasse a madeira para ele, no que ele sem entender atendeu e partiu. A filha curiosa perguntou ao filho para que ele queria aquilo, ao que ele respondeu que era para ele usar quando ela quando estivesse velhinha também.
    Helenice – Juiz de Fora – MG

  8. CLEONICE L WEBER disse:

    Luciane o assunto é de suma importancia, pois aborda a questão da responsábidade dos filhos no cuidado com os pais dependentes. Lembro-me do comentário de um paciente ” a lei pode me obrigar a cuidar de meu pai, mas não pode obrigar a amar”.

    Um abraço,
    Cleo

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