Publicado em: 12/07/2011

A cura do envelhecimento
Nos últimos dias, uma notícia veiculada em alguns jornais e sites da internet fascinou alguns, ao mesmo tempo em que preocupou outros: um cientista afirmou que a “cura” para a velhice não demora a acontecer.
Claro que, de certa forma, todos sonhamos com a imortalidade, porém esta idéia levanta uma série de questionamentos, os quais tentarei levantar a seguir.
1- O envelhecimento não é uma doença, portanto, não faz sentido tentar sua cura. Como já mencionei em outros artigos aqui no site, é necessário desvincularmos esta associação do envelhecimento à doença ou à dependência. O envelhecimento é um processo natural do organismo e pode ser apenas um declínio gradual, normal, sem necessariamente a ocorrência de doenças e síndromes crônicas. Desvincular a idéia de envelhecimento à de doença é um passo na tentativa de minimizar o preconceito pela velhice, muito presente em nossa sociedade.
2- As terapias que prometem o aumento da longevidade envolvem sérias questões de bioética. Na referida entrevista, falam de novas terapêuticas que ainda carregam consigo incerteza e novos experimentos, como, por exemplo, as células-tronco e as terapias genéticas. Mas tudo que é novo causa incertezas. Como, por exemplo, julgar o que é ético e o que não é ético frente a algo novo? Isto leva tempo e a construção de novas concepções de “certo” e “errado”.
3- Durante o período de transição entre os “mortais” e os “imortais”, o que será feito de nós, mortais? À medida que estes seres humanos “imunes ao envelhecimento” forem sendo criados, inicialmente eles terão que conviver com pessoas como nós, que nasceram, cresceram, se desenvolveram, envelheceram e que um dia irão morrer. Seremos seres imperfeitos numa sociedade de pessoas perfeitas, que não adoecem e não envelhecem. Que fim estes seres quererão para nós? As únicas causas mortis serão relacionadas a eventos externos ao indivíduo? Não mais se morrerá de doenças? Nos países com maiores índices de violência e acidentes de trânsito, por exemplo, será tão simples chegar aos 200 anos?
4- O envelhecimento não é um processo apenas biológico, porém biopsicossocial. A reportagem falava apenas do envelhecimento do corpo. Mas não podemos separar as instâncias psicológicas e sociais. O corpo não envelhece, mas será possível manter-se jovem psicologicamente e socialmente por 200 anos ou mais? Como seriam as relações com filhos, netos, bisnetos tataranetos? Como seriam as relações conjugais por tantos anos?
5- Questões como saúde pública, habitação, previdência e planejamento familiar teriam que ser repensadas. Se a taxa de mortalidade irá diminuir e a expectativa de vida irá aumentar, o planeta será superpovoado. Provavelmente será necessária a adoção de medidas rígidas para o controle de natalidade, visto que o planeta não teria espaço e recursos disponíveis para a sobrevida de tantas pessoas. As pessoas irão se aposentar com qual idade, já que viverão mais? Os países terão renda para a Previdência de tantos aposentados?
6- Irão viver mais apenas quem puder pagar pelas novas terapêuticas ou as mesmas estarão disponíveis para todos? A meu ver, esta é uma das questões mais importantes. O sonho da imortalidade estará disponível a todos, como direito concedido aos usuários dos sistemas públicos de saúde de cada país ou apenas para aqueles que tiverem condições de custear pelos tratamentos anti-envelhecimento? Caso seja esta última opção, além de a “cura para a velhice” ser preconceituosa do ponto de vista etário, será também do ponto de vista econômico e social.
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Que pena não aparecerem as datas dos comentários, não sei se hoje
(15/04/2012) está muito longe do último publicado. Bom de qualquer maneira, quero compactuar com as idéias do Leocádio que dá uma visão ampla e científica à matéria, independente das crenças pessoais de quem quer que a leia. Vi muita clareza na exposição dele e nenhuma agressividade.
Olá Rozy. Procurei colocar em minhas palavras informações, discordância e contestações, não sei de onde vem a agressividade que você viu nelas. Você também coloca nelas um medo que não existe … Com todo respeito, para interpretar, ou tentar interpretar minhas palavras, você deveria no mínimo, me conhecer … Além do mais, acredito que este espaço não é um espaço para interpretações, por isso não interpretarei suas palavras, embora pudesse fazê-lo. Quanto a quem tem razão, não é motivo para preocupações, o tempo dirá, logo, acredito, quem está certo. O tempo costuma ser bastante esclarecedor, e imparcial.
Caro Leocádio… quanta agressividade em suas palavras…. do que vc tem medo? de viver? de adoecer? de envelhecer? ou de morrer? a morte nada mais é (depende do ponto de vista, é claro) do que a liberdade da alma….como cita Cruz e Souza em “cárcere das almas”, grande poeta brasileiro. Abraços.
Cara Rozy Alves, muitas reflexões e análises já foram feitas sobre o envelhecimento no decorrer dos séculos, desde que o homem começou a pensar … Aqueles que se dedicam à cura da velhice não estão alheios a todo este repertório secular de reflexões, e também não estão interessados numa eterna juventude, simplesmente porque sabem que “eterna juventude” não existe. Como você bem deu a entender, nada é eterno. Somos parte da natureza, sim, mas há frutos que não amadurecem e morrem antes … Aqueles que buscam a cura do envelhecimento querem apenas aumentar a longevidade e manter a saúde neste período de aumento de longevidade. E já se sabe hoje que o processo molecular básico subjacente ao envelhecimento é o mesmo, repito, O MESMO, que subjaz em todos os outros processos degenerativos que reconhecemos como doença! Se a “aceitação com naturalidade” faz o processo deixar de ser doença e passar a ser “natural”, então porque não também “aceitarmos com naturalidade”, o câncer,o diabetes e os processos degenerativos vasculares, para ficarmos apenas naqueles que mais matam? Claro que todos os esforços para melhorar a qualidade de vida de idosos são bem vindos e necessários, enquanto a cura do envelhecimento não chega. Aliás, esta cura está bem mais perto do que as pessoas costumam imaginar.
Parabéns Luciene pelo artigo! realmente muitas reflexões e análises serão necessárias antes de um “veredito” quanto a cura para a velhice. Trabalhar para o idoso ter uma melhor qualidade de vida é diferente de buscar uma eterna juventude. Envelhecer, é um processo natural… somos parte da natureza, cujos frutos, nascem, ficam maduros e morrem. É necessário uma renovação…. Se aceitarmos com naturalidade, deixa de ser uma doença e sim um processo natural para todos. Abraços.
Leocádio, obrigada por sua contribuição. Li algo sobre esta experiência que vc citou, não tenho dúvidas sobre os avanços da medicina e da biotecnologia, mas continuo defendendo a idéia do envelhecimento não ser uma doença, e sim um processo natural do desenvolvimento humano, enquanto ser holístico.
Discordo. O envelhecimento é sim, uma doença, e este é, atualmente, o posicionamento das maiores autoridades da área. Convido a autora deste artigo a refletir sobre o fato de o envelhecimento ter sido revertido, embora não fosse esse o objetivo da experiência, em ratos, no final de novembro do ano passado, na Universidade de Harward, Estados unidos. A equipe que realizou o feito era comandada por Ronald de Pinho, e foi um trabalho de engenharia genética envolvendo a telomerase.