CIDADÃO DO SOFÁ

por Pitico

O idoso é o anti-tema da mídia. Gravei na mente esta afirmação do assistente social e gerontólogo paulista, Marcelo Antônio Salgado. Diga-se de passagem, um gigante da gerontologia brasileira. Estudando o tema “Mídia e Envelhecimento” lembrei-me da afirmação do Marcelo. Concordo com ele. Ainda mais agora apoiado neste estudo e com as leituras de especialistas na matéria. A tv, o rádio, o jornal impresso, quando apresentam o idoso, ele é visto de um modo deficiente: ” Predominantemente jocoso ou condenatório em relação ao conceito de velhice, associado sempre ao desprezível”. Fonte: Malu Fontes, jornalista, mestre e doutora em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Onde e como está o idoso nos jornais? Nas páginas de atropelamentos no trânsito, vítimas de diferentes golpes da ação de estranhos(assaltantes). No mundo da ficção, personagens velhos frequentemente aparecem como: excêntricos, tolos, sexualmente limitados, menos inteligentes, fechados a experiências e pouco flexíveis. Puro pré-conceito. Vários. A insistência dos meios de comunicação massivos na apresentação deformada e incompleta dos idosos, produz e reforça na sociedade, uma imagem negativa em relação ao envelhecimento: inutilidade e incompetência. Quem vai querer envelhecer com estas imagens socialmente construídas?

Não querem mais (só) o tricô, o crochê e o pijama. Querem mais. E podem mais. Não mais cidadão do sofá, como diria a pensadora Maria Victória Benevides.

A negação da velhice não é por acaso. A mídia como espaço da política se converteu, na opinião de Marco Aurélio Nogueira ( o que não é o Perdigão) em palco de imagens, fatos e menos de opiniões substantivas e protagonistas organizados, estreitando os lugares em que seria possível afirmar identidades coletivas e projetar o futuro. Através do exercício profissional cotidiano com os idosos, percebo que eles querem fazer uma outra velhice. Não querem mais (só) o tricô, o crochê e o pijama. Querem mais. E podem mais. Não mais cidadão do sofá, como diria a pensadora Maria Victória Benevides. É preciso reconstruir a noção de velhice entre nós. Que velhice nós queremos- os mais novos- para nós mesmos? A Regina Garcia está  certa: ” não queremos uma sociedade para os idosos, e sim, os idosos na sociedade”. Ou como diria o próprio Marcelo já citado no texto,” se a sociedade inventou a velhice, cabe aos idosos reinventarem a sociedade”.

A notícia que a mídia mostra em relação aos sujeitos, como ainda é dada, não nos interessa. Nos interessa o fortalecimento do direito que os idosos têm, como outros atores, de serem ouvidos. Direito à expressar publicamente o que pensa e o que quer da cidade. Atuarem como protagonistas. Pró-ativos, propositores de políticas. Cidadãos ativos. Numa solidariedade intergeracional- crianças, jovens e adultos. Eu acredito.

PITICO

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4 Comentários para “CIDADÃO DO SOFÁ”

  1. Adriane Brasileiro Mazocoli Silva Diz:

    “se a sociedade inventou a velhice, cabe aos idosos reinventarem a sociedade”

    ISSO, MUITO BOM, José Anísio!! ( desculpe, nao consigo te chamar pelo apelido hehe.. .nao sou mto boa com apelidos, e acho seu nome + bonito hehe - e nao nos conhecemos pessoalmente né? apesar de eu te ver e admirar há alguns anos, como grande pessoa pensador e defensora dos “idosos”q sempre foi - me parece…)

    Enfim, falando em idoso e cidade… é impressao minha ou nosso prefeito , agora, será necessariamente alguém com mais de 60 anos de idade? hehe… é né?!!!

    E OUTRA… José Anísio, eu NAO GOSTO do termo “idoso”nem do “terceira idade”. Na verdade, já vi alguém, nao lembro se dr. Marcio, Assuero, Carla ( BH) ou outro colega , falando em congresso ( ou foi na minha especializ. na EStácio, 2000) falando q ainda carecemos de um termo melhor p/ explicar de quem estamos falando!! vc nao acha?? Meus pais e sogros por ex… hehe… obviamente sao bem diferentes de mto disso aí q falam deles, como vc bem citou - ou como a sociedade os trata, mtas vezes - aliás minhas DUAS avós com bem mais de 80 anos também!! - , e eu me nego a resumi-los tanto assim…

    vamos reinventar? hehe ( o q eles dizem disso??)
    bjsssssssss

  2. Emerson Diz:

    Pois é Pitico…. Vivemos numa sociedade onde atualmente a situação de pertencimento está na relação de estar no centro ou na periferia, dentro ou fora….
    Com certeza temos ainda segmentos que estão a margem da possibilidade de atendimento de suas necessidades. Aí vem a mídia (e aí falam até de forma diferente, mais leve, pontuando valores positivos, …..) com seus valores de mercado onde o idoso (e outros)só tem espaço quando o interesse do atendimento está na satisfação daqueles que investem neste “mercado tão promissor e em franco crescimento”. Virou negócio….
    Abraços
    Emerson

  3. Helenice Diz:

    Acho impressionante a dificuldade que nós, seres humanos, temos de nos colocar no lugar dos outros efetivamente. Envelhecer todos vamos e ainda nos deparamos com maus tratos, destratos e indiferenças com os que tem mais idade que nós. Educo meu filho para que seja respeitoso com todos e principalmente com pessoas adultas e mulheres. Quero reeditar nele os valores que recebi e que não vejo mais por aí. Auxílio para carregar sacolas, ceder lugar o ônibus, chamar de “senhor/senhora” etc. Penso que foi nesses detalhes que as coisas começaram a se perder.

  4. Allan Kardec Lourenço Silva Diz:

    Pitico, mais uma vez parabéns pelo tema, acredito que somente com a participação ativa das pessoas comprometidas com o tema é que vamos mudando estes conceitos (pré), Continuamos na luta por outra sociedade, mais inclusiva e que saiba respeitar os cidadãos em todas as etapas da vida,
    Grande abraço,
    Goretti

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